quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Sapo


A foto foi tirada próxima à parede de Gargalheira, na noite em que o açude começou a sangrar. O animal era imenso, do tamanho de um paralelepípedo e me chamou atenção. Então resolvi fotografar esse personagem que é sempre tão estigmatizado e injustiçado. Ao contrário da maioria das pessoas, sempre simpatizei com a espécie e volto a citar o meu saudosa avô Manoel José Fernandes, o Seu Bilé, como responsável por essa afeição pelo animal. Lembro a forma sempre respeitosa que ele tratava o anfíbio e o vi, muitas vezes, repreender pessoas que judiavam deles. Outro dia, conversando com Dona Bel, minha mãe, ela relembrou um fato ocorrido, em que o injustiçado foi protagonista e passarei a narrar de forma breve.

No final de uma seca vivenciada em tempos remotos, já próximo ao início do período das chuvas (se é que elas viriam), Seu Bilé (meu avô materno) mandou que cavassem uma cacimba para a bebida do gado. Infelizmente ela não deu água, mas o grande buraco ficou aberto e exposto. Vieram as chuvas e ele se encheu, servido de viveiro para os girinos. Só que, por se tratar de um buraco íngreme, após a metamorfose, os anfíbios não conseguiam sair. Então seu Bilé mandou que colocassem estacas para servir de escada e os sapos que lotavam a cacimba pudessem subir. Ele o fez despretenciosamente, só por piedade dos animais. Mas naquele ano, a lagarta atacava implacavelmente a babugem e os roçados de algodão. O que se sucedeu e que Seu Bilé, vez por outra, nos contava, foi que os sapos libertos travaram uma batalha acirrada com a praga instalada, debelando o ataque e literalmente salvando a lavoura.

Nascido pra ser cantor,
Trabalhar, fazer o bem
Só a beleza, não tem
Nem seu corpo tem calor
Mas é um ser de valor
Que trabalha a noite inteira
Combatendo na trincheira
Qualquer inseto ou praga
Sua língua é uma adaga
De estocada certeira

Na noite faz sua feira
Sem cochilar um segundo
Faz a faxina do mundo
Sem parar ou fazer cera
De dia tá na ribeira
Ou dormindo na lagoa
Na hora quente se amoa
Espera a noite chegar
Para logo trabalhar
Quando chega a hora boa

Não tem pressa e não voa
Mas é bicho eficiente
Passando a sua frente
Sua língua não perdoa
Rapidamente arpoa
Como o laço de um vaqueiro
Eficiente e certeiro
Se ele pegar, não solta
Com a língua dá uma volta
E recolhe-a ligeiro

Tem um bicho traiçoeiro
Que vive na covardia
Por ter-lhe antipatia
Sem motivo verdadeiro
Quando pega, no terreiro
Bota brasa a sua frente
Para engolir, de repente
E gozar da sua dor
Matando o trabalhador
Por ele ser diferente

Não comendo a brasa ardente
Não está salvo do mal
Pois podem colocar sal
Atitude inclemente
Matando o pobre vivente
Que já nasceu condenado
Mesmo não sendo culpado
Um juiz sem coração
Executa sem perdão
Seu algoz é um desalmado

Ser feio e malamanhado,
Estranho e diferente
É o pecado desse ente
Para ser discriminado
Cruelmente desprezado
Sem nada que justifique
Que alguém lhe crucifique
Só por não portar beleza
Faço a sua defesa:
Não o judeie, não o sacrifique

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sangria da Barragem de Umari



















Sempre tive um verdadeiro fascínio pelas sangrias de açudes. Independente do porte do reservatório e da beleza proporcionada pelo evento, a sinalização de que a sua cota máxima foi atingida anuncia que a prosperidade e a bonança pairam sobre nossas cabeças. A espuma branca que jorra pelo sangradouro não é só colírio: é um bálsamo para a alma. Apaga todo o sofrimento da temporada árida passada e repõe as forças do sertanejo, dando-lhe a disposição necessária ao enfrentamento de novas jornadas.

Ontem (26/04), pela manhã, estive na Barragem de Umari, localizado à 8 km da cidade de Upanema. Trata-se do terceiro maior reservatório do estado, com capacidade 292 milhões de metros cúbicos e represa o Rio do Carmo, pertencente a bacia Apodi/Mossoró. Concluída em 2002, a barragem ainda não tinha sangrado, fato que veio a ocorrer pela primeira vez nesta quinta-feira (23/04).

São 2,3 km de extensão do coroamento da parede, toda feita em concreto compactado. É uma obra realmente fantástica, para não dizer faraônica (sem conotação pejorativa). No ponto mais alto, a parede chega a 42 metros de altura e o seu lago ocupa uma área de 3,5 mil hectares. Numa breve comparação com o nosso cinquentenário açude, são cinco Gargalheiras em área do lago e mais de sete, em volume de água.

O ponto negativo é que não há estrutura alguma de atendimento a ser oferecida aos visitantes. Nem mesmo algo precário. Mas como os olhos não necessitam dela (a não ser, de óculos, às vezes) para a contemplação, isso não é problema. Aos que se dispuserem ao "sacrifício" de conhecer a barragem, aconselho levar, além da câmera fotográfica, água ou a bebida de sua preferência.

sábado, 25 de abril de 2009

Perigo nas Estradas






Dia 20/04 enviei ao blogueiro amigo Paulo Martins, o email abaixo, que foi postado por ele em seu blog, na mesma data:

Caro Paulo Martins,


Como o amigo sabe, sou seridoense de Acari e há dois anos o destino, utilizando-se da nossa condição humana de dependente do trabalho, quis que eu me radicasse na região Oeste do estado. Desde então fixei residência em Mossoró, cidade que aprendi a gostar e região que cada vez mais admiro, seja pela sua pujança na geração de riquezas, como também (e principalmente) pelas suas belezas naturais.


Sempre que posso, busco conhecê-la melhor e quanto mais eu me deparo com locais que até então desconhecia a existência, mais me encanto com as belezas do nosso estado. Acho que todo potiguar, antes de cogitar conhecer outras regiões (às vezes até outras nações), deveria ser melhor inteirado do que o seu próprio estado tem a oferecer: um litoral belíssimo; um relevo cheio de belas obras de arte esculpidas pelo tempo; e uma cultura secular, que cada vez mais é absorvida pela globalização do “modernismo”, junto com todas as suas pragas e mazelas.


Esse final de semana meu destino foi a “tromba do elefante”. Eu e mais um grupo de amigos resolvemos dar uma esticadinha até Martins, serra belíssima e clima mais que agradável. Mas o que começou com o desejo de explorar e desfrutar dos encantos da nossa região, quase acaba em tragédia e por esse motivo resolvi te escrever.


Na ida tudo transcorreu bem. A viagem foi tranquila, já que a estrada está bem cuidada e devidamente sinalizada. Na volta, nada indicava que seria diferente. Tempo nublado, clima agradável. Eu e um amigo vínhamos de moto, cada um com um filho na garupa, seguidos por nossas esposas, que vinham de carro, com o resto da prole. Na saída de Caraúbas para Governador Dix-sept Rosado, o tempo fechou. Um toró forte nos pegou de surpresa, mas tudo bem: estávamos devidamente preparados para isso. Os agasalhos nos protegiam da chuva, que apenas nos requisitava uma cautela maior na condução na estrada.


Passado o momento de chuva mais intensa, aceleramos um pouco em direção a Governador, para recuperarmos o tempo perdido. Eis que nesse exato momento, em um horário que a luz do sol não ilumina tão bem, nem a luz artificial dos veículos é capaz de colaborar com a nossa visão, nos deparamos subitamente com um lote de jumentos cruzando o asfalto. Não havia tempo para frear, nem espaço para passar, mas não sei como (e sei: Deus) conseguimos passar incólumes. Tenho absoluta convicção que em cima do asfalto não havia um outro espaço que permitisse a nossa passagem (e tão somente a nossa passagem).


Eu vinha à frente e quanto desviei, buzinei. Para a nossa sorte (graça Divina) o bando se afastou o suficiente para a passagem dos veículos que vinham logo atrás. O restante do trajeto, reduzimos bastante a velocidade e seguimos testemunhando a irresponsabilidade alheia. Até chegar em Mossoró passamos por, pelo menos, mais uma meia dúzia de animais, fora os que repousavam sem vida à beira do asfalto. Restou, como “cicatriz” da viagem, a gratidão a Deus pela proteção que nos permitiu retornar sãos e salvos.


Sei do alcance do seu blog e acredito que os nossos homens públicos não são insensíveis e podem perfeitamente cumprir suas obrigações, desde que a demanda seja exequível e a causa seja justa. Com esse meu relato, fico com a consciência tranquila por ter feito a única coisa que me cabe, que é reivindicar aos que são responsáveis pela segurança nas estradas, que providências sejam tomadas. Diante de tantas taxas e impostos cobrados nos licenciamentos de veículos, isso é mínimo que os órgãos responsáveis poderiam nos dar como retorno. Seria muito bom que as demais pessoas que também se sentem incomodadas com a situação, passassem a se manifestar e cobrar providências a quem de direito.


Forte abraço,


Pedro Augusto.


http://paulomartinsblog.zip.net/

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A Vida


Uma idéia é erguida
Em um pensamento raso
Se creditando ao acaso
O surgimento da vida
Teoria sem saída
Se a natureza depor
E o incrédulo dispor
De um olhar abrangente
Verá em cada vivente
O dedo do criador

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

Angústia



Mesmo estando tão perto
Tudo parece distante
Naquele breve instante
Não pareço estar liberto
Agonizo num deserto
Onde a vida é miragem
É irreal a paisagem
Já que em nada se toca
O impossível, sufoca:
Sensação de carceragem

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Soprano Alado




Algumas lembranças da infância teimam em nos acompanhar, bem vivas, durante toda a nossa existência. Foram momentos que se transformaram em ensinamentos que fazemos questão de preservar de forma intacta.
Eu, ainda criança, acompanhando Vovô Bilé no retorno do Açude do Sítio Benedito para casa sede. Após admirá-lo com encanto abrindo a tarrafa em lances perfeitos, passávamos pelo roçado, onde ajudava-o a trazer feijão verde, milho, jerimum e melancia. O ano, não lembro. Mas certamente era um ano bom de inverno, como este, e a década era a de 70. Ao chegarmos à sede, sentávamos no alpendre, ele escolhia a melhor melancia com algumas batidas com o dedo; abria com a faca peixeira e saboreávamos aquela fruta de paladar único, enquanto algum morador, que tinha nos acompanhado na pescaria, tratava os peixes. Em seguida cravava as cascas da melancia em estacas de cerca, para assistirmos a passarada vir fazer a sua ceia. Esse ritual se repetia sempre. Certa vez eu disse a ele que gostaria de pegar alguns daqueles passarinhos para criar. Então ele, com a resposta própria dos sábios, respondeu: - Para quê, meu filho? Você gostaria de estar preso? Os pássaros são muito mais belos quando soltos. Com uma lição aprendi duas: valorizar a nossa liberdade e a beleza dos pássaros livres.


É triste um pássaro nobre
Estar mais para uma lenda
Sem ninguém que o defenda
Do alçapão, destino pobre
A fama que o recobre
De belo cantor cativo
Metido a possessivo
Lhe priva da liberdade
Não aceita intimidade
Briga por qualquer motivo

Mesmo sendo agressivo
O homem lhe derrotou
Perseguiu, engaiolou
Com seu gênio destrutivo
Esse pássaro altivo
Transformado num troféu
Devia habitar o céu
Mas tá preso na gaiola
A forca que o degola
É inclemente e cruel

Só a Princesa Isabel
Poderia alforriar
E à liberdade, guiar
O preso que não é réu
Se pudesse, esse cordel
Já teria decretado
Num ato, abjugado
Através de um induto
Rendendo-lhe o tributo
De cantor “Soprano Alado”

Qual seu crime? Seu pecado?
Ser bonito e cantador
Na rinha, um brigador
Por isso muito afamado
Pra não ser encarcerado
Mesmo não fazendo mal
Só nascendo outro animal
No canto, deficitário
Em vez de ser um canário
Terá que nascer pardal


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)



domingo, 12 de abril de 2009

Sangria II


Hoje cedinho(12/04), já levantei com o pensamento de ir bater continência, na primeira ação do dia, ao Marechal Dutra. Resolvi ir caminhando por dois motivos: desfrutar dos benefícios da atividade física e também para poder contemplar melhor o belo trajeto para o nosso "Monte Sião". Levei a câmera fotográfica para tentar cristalizar momentos que a retina de acariense sempre se encanta e grava na memória, mas a habilidade de fotógrafo amador é incapaz de um registro competente. Mesmo assim, resolvi arriscar.

Deixando a Vedete do Seridó, o cenário de beleza, onde a própria natureza vai preparando o espírito para o espetáculo, que imagino já esteja acontecendo: a aparição do véu de noiva. Em determinado momento tive que apressar o passo, senão não chegava ao destino, empalhado fotografando e admirando suas serras, cordilheira.


Ao chegar na curva do Café Torrado, vem a lembrança dos acarienses que hoje não mais se encostam no alambrado da parede para apreciar a sangria, mas que certamente continuam a se encantar, debruçados na varanda celeste. Nesse momento vem outro pensamento: certamente daqui a pouquinho a peregrinação dos "romeiros" vai aumentar, intensificando o fluxo de veículos. A euforia, a bebida e o trânsito intenso pode resultar em desfechos que me fez parar um pouco e pedir a Deus para que nada de mau aconteça.




Deixando o perigoso "s" do Café Torrado para tras, o "Pão de Açúcar" resplandece, junto com a primeira vista da Pousada que aparece indefesa e insignificante, diante da imensidão do maciço de granito e da explosão de vida que a natureza proporciona.

Na entrada da vila, o paredão rajado da Serra do Minador me dá as boas vindas.


Na primeira vista da água do açude, a Pedra do Avião se apresenta e passa a me acompanhar no trecho final do trajeto, antes...

...e depois da vila, como que uma guia, nos conduzindo ao espetáculo apoteótico que se segue.

Uma última olhada no "Pão de Açúcar", com a água minando da Serra do Abreu, parecendo um espelho sobre a rocha. Ouço o ronco vindo da garganta mais famosa e preparo o espírito para a cena que está por vir.










A partir daí, as palavras se tornam desnecessárias e perdem o seu significado. Apenas 10 cm de lâmina d'água que se projetava a partir do concreto, na manhã do domingo de páscoa, seria capaz de estender um véu de magia e encanto, que marca profundamente a alma de todo aquele que se atreve a decerrar os olhos diante de tanta beleza. As imagens falam.

sábado, 11 de abril de 2009

Sangria




...e o que parece até o mar inicia a sua caminhada em direção a ele. Agora a pouco, por volta das 20:20h (horário extra-oficial), Gargalheira começou a sangrar. O maior espetáculo das águas do Seridó começa de forma tímida; o véu da noiva está sendo preparado para ser exibido, com toda a sua exuberância e beleza, na manhã do domingo, quando a lâmina d'água já deverá ser forte o suficiente para produzir a tão esperada cortina de espuma. Acari está em festa e o cinquentenário do açude já está coroado.

Quase



Creio que as fotos exprimem o limite da palavra "quase". Foram tiradas agora pela manhã (11/04-08:00h) e mostram Gargalheira no limiar da sangria. Agora a medição não é mais em centímetros e sim em gotas d'água. Na primeira foto é possível observar que a marola em alguns momentos já conseguiu transpor o concreto, escorrendo e deixando o seu rastro na alvenaria imponente.

“Quase” define o fracasso
Ou então o retrocesso
Desculpa sem substância
Crasso erro no processo
De quem não levou a cabo
Incorrendo no regresso


Retrato do insucesso
Quase ser um aprovado
Quase que tirar na sena
Quase que o gol foi marcado
Quem é quase o que quis ser
Sempre será um frustrado


Quase teve um passado
Nunca terá um futuro
Não terá o alicerce
Que sustentará o muro
Tentará se segurar
Mas nunca estará seguro


Sempre um fim prematuro
Reserva-lhe o destino
O que é quase legal
Sempre será clandestino
Quem quase age com honra
Sempre será um cretino


Sempre será um mofino
Quem quase é corajoso
Quem perdeu uma disputa
Quase foi vitorioso
O que é quase de graça
Sempre é muito oneroso


Se quase fica gostoso
O prato não tem sabor
Se é quase preciosa
A pedra não tem valor
De uma quase lealdade
Sobrevive o traidor


Se quase que sente amor
A paixão não se promove
A nuvem quase deságua
No dia em que não chove
Açude quase sangrando
A beleza não comove


Mas nada que desaprove
Quem o “quase” valoriza
É tão forte e incisivo
Que a vida, na divisa
Quem quase que está vivo
Morreu. Não mais agoniza

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Ônus Profano



Como em um breve aceno
O verde logo amarela
Se despedindo, sem trela
Folhas caem no terreno
Parece tomar veneno
A vida se dilacera
Quando a aridez supera
Transformando em deserto
Mesmo estando liberto
A seca nos encarcera

Esse tempo que impera
Na maior parte do ano
Aleija de qualquer plano
O fraco se desespera
O vento que vocifera
Carregando a umidade
Também leva pra cidade
Quem não suporta o sufoco
Entre espinhos e tocos
É dura a realidade

Indescritível maldade
Se faz com o trabalhador
Mutilado do labor
Perde a dignidade
Vivendo de caridade
Da esmola oficial
O Governo Federal
Em vez de a vara lhe dar
Ensinando a pescar
Já dá o peixe com sal

Dar-lhe bolsas é um mal
A esmola desapruma
O sujeito se acostuma
Com um vício amoral
Esse é o seu final
Passa a estorvo humano
Um problema suburbano
Quem plantou e produziu
Alimentou o Brasil
E hoje é um ônus profano

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: Peço desculpas aos frequentadores deste espaço para colocar o quadro "Retirantes", de Portinari, com um poema meio fora de propósito, em um ano que promete ser de fartura. Mas
é que acho esse momento oportuno para uma reflexão sobre o que está por vir e o que foi feito para mudar o futuro. Será que o Nordeste vai ser perpetuamente condenado a "ônus profano"
do Brasil e a única coisa a ser feita é a distribuição de bolsas?

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Doce Lembrança


Foto: David Clemente

Mergulho no pensamento
De uma lembrança sublime
Que singelamente exprime
O prazer de um momento
Feito um barco ao vento
Velejando na memória
Numa doce trajetória
Refletida no presente
Cada emoção latente
Faz da vida, uma glória

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

domingo, 29 de março de 2009

Nasceu para Cangalha



Tem gente que é desprovida
Da mais tênue sapiência
Sem nenhuma inteligência
Para ser desenvolvida
A mente é combalida
Seu juízo tem cancela,
Cadeado e taramela
Seu raciocínio falha
Quem nasceu para cangalha
Nunca vai chegar a sela


Aquele que discrimina
Alguém pela sua cor
Que julga não ter valor
Pela origem nordestina
É o mesmo que abomina
Quem carrega uma sequela
Ou do idoso não zela
Reservando a migalha
Quem nasceu para cangalha
Nunca vai chegar a sela


O eleitor que se vende
Renuncia o poder
Do direito de eleger
Seu papel não compreende
Por isso não surpreende
Quando ele a urna mela
Vota em galã de novela
Ou outro que não trabalha
Quem nasceu para cangalha
Nunca vai chegar a sela


Mesmo que a atitude
Tenha efeito bumerangue
A tolice tá no sangue
E não permite que mude
Por mais que o sujeito estude
A sandice não debela
E o caráter se revela
Nas asneiras que espalha
Quem nasceu para cangalha
Nunca vai chegar a sela

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: O raciocínio da poesia só é válido para asininos humanos. A foto (domingo 29/03) mostra uma dupla de jumentos que largaram a cangalha, passaram pela sela e hoje estão curtindo a belíssima praia de Ponta do Mel.


sexta-feira, 27 de março de 2009

O Pneu



O homem inventou a roda
Revolucionou o mundo
Encurtando as distâncias
Percorrendo em um segundo
Onde antes só se ia
Com o pensamento fecundo

Arredondou uma pedra
Fazendo a roda primeira
Depois um outro artesão
Esculpiu-a na madeira
Mais tarde a roda de ferro
Subiu e desceu ladeira

Para ajudar no progresso
A roda foi libertada
Saiu do trilho de ferro
Para encarar a estrada
Que era feita de barro
Sinuosa e esburacada

Era tanto solavanco
Com o carro, quase parado
Foi então que se encheu
Um cilindro anelado
Comprimindo-se o ar
O pneu estava inventado

Essa grande descoberta
Permitiu a evolução
Melhorando a freada
Otimizando a tração
Reduzindo os impactos
Amortecendo o chão

Hoje olho um avião
Que sem pneu não decola
Os veículos de estrada
Que tem uma outra bitola
Ou os carros de corrida
Que quase do chão descola

Olhando a nossa volta
Se percebe a importância
O papel essencial
E a grande relevância
Que o pneu representa
Para qualquer circunstância

Mas é triste perceber
A vã genialidade
Que desenvolveu a roda
Demonstrando habilidade
Não faz esforço nenhum
Para limpar a cidade

Abandona no monturo
Ou no terreno baldio
Esse objeto nobre
É desprezado no rio
Não restando o que fazer
Com quem tanto nos serviu

Deu apoio a polícia
Equipando o camburão
Tá no carro do bombeiro
Que o leva à missão
Transporta o retirante
No regresso ao sertão

O pneu que salvou vidas
Rodando na ambulância
E o que levou riquezas
Transportando a pujança
É refúgio de mosquito
Graças a ignorância

Quem teve inteligência
Com o seu dom de criar
Demonstra nenhum empenho
Para poder reciclar
Abandonando ao léu
Na hora de descartar

Depois de tanto servir
Merecia melhor sorte
Quem aproximou pessoas
Rodando do sul ao norte
Hoje só serve a dengue
Sendo berçário da morte

É o homem no espelho
É o espelho do descaso
O descaso com o futuro
É o futuro ao acaso
O acaso guiando o mundo
O mundo no fim do prazo


domingo, 22 de março de 2009

Aborto



Totalmente indefeso
No ventre da inimiga
O corpo que o abriga
Por ele só tem desprezo
Deveria estar ileso
No seu desenvolvimento
Recebendo o provimento
Dentro de uma fortaleza
Com infinita nobreza
E total desprendimento

Tendo outras opções
Pra evitar gravidez
Se pratica a insensatez
Na maior das agressões
Um covil de leões
É o corpo infanticida
Que põe fim a uma vida
Em vez de a defender
Soube muito bem fazer
Arranje outra saída

Sem a proteção materna
Não lhe resta alternativa
Solução definitiva
Dentro da visão moderna
Um crime que não consterna
Quem devia só cuidar
Se dispõe a praticar
O aborto ilegal
Exacerbação do mal
E covardia sem par

Não há justificativas
Para uma barbárie dessas
Atitude que confessa
Nossa força destrutiva
Em uma ação furtiva
Que o feto predestina
A ligação vitalina
Pois o ser que é vitimado
Além de estar desarmado
Não vive sem a assassina


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: Gostaria de enfatizar que sou absolutamente a favor do aborto legal. Nos casos previstos em lei, quando a vida da mãe está em risco, a prioridade deve ser preservar a vida da mãe. Não defendo, nem sou favorável a posição do bispo pernambucano que excomungou os responsáveis pelo aborto na menina de 9 anos, mas tenho receio que aquela infeliz declaração do religioso possa ser usada a favor da banalização da prática. A igreja está correta em tentar preservar a vida, mas o bispo, na minha humilde visão, totalmente errado em opinar sobre a inexistência de risco de vida naquela gestação. Assim como Lula não está gabaritado para opinar sobre religião, ele também não tem embasamento para opinar sobre medicina.

sábado, 21 de março de 2009

Dia Bom é Dia Chuvoso


Muita coisa nessa vida
Eu já me acostumei
Quantas vezes, já troquei
Caseira e boa comida
Na jornada, mais corrida
Em vez de um prato gostoso
Um sanduíche oleoso
Enganando a barriga
Só não aceito que diga
Que ruim, é dia chuvoso


Sendo preciso, até uso
Sapato, terno e gravata
Um trabalho burocrata
Exerço, mas sou intruso
Mesmo ficando confuso
Persisto, pois sou teimoso
Se o futuro é duvidoso?
Comigo, não tem fadiga
Só não aceito que diga
Que ruim, é dia chuvoso


Pode dizer que sou feio
Que tenho a pá virada
Que não pego na enxada
Todo doido, eu chateio
Se tem farra, eu tô nomeio
Num papel de criminoso
Diga que não sou cheiroso
Eu tolero, sem intriga
Só não aceito que diga
Que ruim é dia chuvoso


Separo-me da cachaça
Saio da mesa de jogo
Voto em um demagogo
Aceito a ameaça
Até suporto a pirraça
Tolero o calunioso
Tudo que for prazeroso
Desisto, sem fazer figa

Só não aceito que diga
Que ruim é dia chuvoso


Eu esqueço a panelada
Abandono a paçoca
Desprezo a tapioca
Saio fora da buchada
Passo sem a imbuzada
Que é um doce apetitoso
Mesmo sendo um guloso
Empestado de lombriga

Só não aceito que diga
Que ruim é dia chuvoso


Deixo a vida de gado
Abandono a vaquejada
Topando qualquer parada
Presente vira passado
Pra trás fica um legado
Recordo, por ser saudoso
Um tesouro precioso
Que a minha alma instiga
Só não aceito que diga
Que ruim é dia chuvoso


Tem coisa pior no mundo
Que um engarrafamento
Um sujeito num jumento
Ultrapassa num segundo
E o tal do submundo?
Tem um prisma assombroso
Um mundo inescrupuloso
Que a desgraça é uma cantiga
Só não aceito que diga
Que ruim, é dia chuvoso


O sujeito faz a casa
Bem em cima de um morro
Pra logo pedir socorro
Quando a chuva tudo arrasa
Mais seguro, é em Gaza
Mesmo sendo belicoso
Parece falacioso:
Um chuvisco desabriga

Só não aceito que diga
Que ruim, é dia chuvoso


Erguem uma comunidade
Bem no meio da lagoa
Só devia ter canoa
Onde avança a cidade
A pura realidade
É que o homem é buliçoso
Seu agir, é desastroso
Com a natureza litiga
Só não aceito que diga
Que ruim, é dia chuvoso


A água é dona da vida
Ela merece respeito
Preservando o seu leito
E não sendo obstruída
Terá livre a saída
Para um rio caudaloso
Em dia tempestuoso
Contra ela, não se briga
Só não aceito que diga
Que ruim, é dia chuvoso


Cheiro de chuva, convida
A um banho de goteira
S'ela não for passageira
E não sendo comedida
Como que seja aspergida
Das mãos de Deus, generoso
Um milagre aquoso
Que a nossa alma, irriga
Só não aceito que diga
Que ruim, é dia chuvoso *

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

(*) Poema publicado no blog Acari do Meu Amor, em 16/01/2009, sem as estrofes 3, 4, 5 e 6.
http://acaridomeuamor.nafoto.net/photo20090116204618.html


Branquinha e o Sapo Encantado



Como faz todo domingo
Branquinha acordou cedo
Adiantou o serviço
De trabalho, não tem medo
Arrumou-se e foi pra missa
Devoção não tem segredo.

Foi uma bela cerimônia
O padre tava inspirado
Caprichou no seu sermão
Sem deixar fiel cansado
Tudo tava uma perfeição:
Que domingo abençoado!

Mas foi a missa, findar
E a graça acabou
Foi saindo da igreja
Aí, o bicho pegou
Deu de cara com um sapo
Seu domingo desgraçou.

O sapo olhou pra ela
E disse: - Não tem saída
Ela se pôs a tremer
- Vou dar fim a sua vida
Não adianta correr
Sou muito bom de corrida.

Foi quando tentou gritar
Mas sua voz não saiu
Esperneou, fez de tudo
E ninguém, sequer, lhe viu
Só um “véi” que ia passando
Foi quem, a ela, acudiu.

O velho tomou a frente
E disse: - Deixe comigo
Já enfrentei cascavel,
Nunca temi o perigo,
Vou dar um chute no bicho,
Para sapo, eu não ligo.

O tinhoso abriu a boca
E deu um bote no pé
Lançando a sua língua
Ôhhh, sapo que era agé!
Só não engoliu o “véi”
Por causa do seu chulé.

Então, ele se soltou
Caindo fora da fria
Disse: - Meu Deus, obrigado
Abenção, Virgem Maria
Esse bicho é o sapirico
Nessa eu quase morria.

Aí, Branca ficou só
Com esse troço medonho
Enquanto ele cuspia
Viu que não era um sonho
Pensou: “Se eu não correr,
Não me livro do demônio”.

Fez frecheiro e arredou
Em busca da sua casa
Pela rua da matriz
Não voou por não ter asa
Nisso ele acompanhou
Maldição nunca se atrasa.

Em disparada, gritou,
No meio do rebuliço:
- Esse troço é encantado
Valei-me meu Padin Ciço
Me acuda, por favor,
Livre-me desse feitiço.

Já ‘tava perto da praça
Bem no centro da cidade
Passou por um pescador
Um senhor, de meia idade
Que retornava da pesca
Acredite, é verdade.

Esse sujeito andava
Cheio de peixe, na embira
Tilápia, tucunaré,
Curimatã e traíra
Eu não sei se foi milagre
Acho que a reza servira.

A traíra debateu-se
Quando passou pelo sapo
Estribuchou na embira
Dando um grande supapo
Se soltou e deu um bote
Passando o bicho no papo.

Livrou-se da maldição
Desse bicho desalmado
Acudida por um peixe
Ou um heroi escamado?
Que a salvou por acaso
Ou foi um anjo enviado?

Até hoje a menina
Em sinal de gratidão
Não bota peixe na boca
Lembrando do guardião
Agradece a “Padin Ciço”
Em prova de devoção. *

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

(*) Poema publicado no blog Acari do Meu Amor, em 06/01/2009.
http://acaridomeuamor.nafoto.net/photo20090105232609.html

Combinação



Um aboio combina com um chocalho
Guarda-peito, com perneira e gibão
O cangaço, com seu rei, Lampião
A manhã, com uma gota de orvalho
A vereda combina com o atalho
A miunça, com cerca de ramada
A caatinga, com a mata fechada
Cantador, com a rima e a viola
O sertão não combina com esmola
Nem açude, com a lama rachada

A imagem desse nosso torrão
É da seca cruel, que nunca passa
A miséria, a fome e a desgraça
Implacáveis, castigam sem perdão
Tem que se reparar a distorção
Da pintura que foi mal desenhada
Transformando em página virada
Problemas que o Nordeste, assola
O sertão não combina com esmola
Nem açude, com a lama rachada

Já cantava o sábio Gonzagão
Que esmola é falta de respeito
Vai matar de vergonha, o sujeito
Ou então viciar o cidadão
É preciso uma outra solução
Pra região ser viabilizada
Aproveitando a água da invernada
Reservando o recurso que extrapola
O sertão não combina com esmola
Nem açude, com a lama rachada

Parece que está mal colocado
O clamor feito em ano de fartura
Mas por isso que lembro da agrura
Do futuro incerto e indesejado
Não podemos alterar o passado
Nem achar que a vida tá traçada
Esperando, com as pernas cruzadas
Pois a seca voraz está na cola
O sertão não combina com esmola
Nem açude, com a lama rachada

O Nordeste combina com a alegria
Esse povo, com a felicidade
A sua vida, com a simplicidade
Suas lutas, com páginas da história
Seu passado, com lágrimas e glória
Seu futuro, com um conto de fada
A miséria total erradicada
Crianças, com freqüência na escola
O sertão não combina com esmola
Nem açude, com a lama rachada *

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

(*) Poema publicado no blog Acari do Meu Amor, em 16/07/2008.
http://acaridomeuamor.nafoto.net/photo20080716190608.html

sexta-feira, 20 de março de 2009

Imbu
















Prometo manter teu nome
Vens de Ymb-u, no Tupi
“Planta que dá de beber”
Não dá pra retribuir
A importância que tens
Pra o sertão de Acari

O índio te batizou
Porque em tua raiz
Ele saciava a sede
Escapando por um triz
Sabedoria passada
Aos colonos, gentis

Umbu é pra quem não sabe
O sabor do teu azedo
Ou pensa que fala errado
Muda a pronúncia por medo
Pois saibas, tá no Aurélio
Digo sem pedir segredo

És muito mais que um fruto
Simbolizas a bonança
Que chega após a seca
Apagando a lembrança
Do sofrimento passado
Transformado em esperança

Faz-se suco ou licor
Compota de doce em calda
O vinagre contrastando
A fruta cristalizada
Mas o mais nobre produto
Claro, é a imbuzada

Verde, inchado ou maduro
Tira-gosto, sem igual
Acompanha a cachaça
Preferência regional
Só preciso de um caroço
E uma pitada de sal

Parada obrigatória
Do Vaqueiro, em sua lida
A sombra do imbuzeiro
Acolhe, dando guarida
E repõe as energias
Com seu bálsamo de vida

Também é local sagrado
Pra meninada brincar
O afoito sobe ao olho
Escolhe os que vai levar
Quem não sobe, se contenta
Com os que der pra catar

A força do sertanejo
Na tua seiva tá presente
A mais severas das secas
Suportas, és resistente
Esperando pela chuva
Cheio de vida latente

É melhor matar a árvore
Que o seu nome mudar
Respeite o imbuzeiro
Deixe de apelidar
Quem chamar ele de "umbu"
Não tem direito a provar *

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)


Seridó



Quando chegar minha hora
De voltar da carne ao pó
Quero poder repousar
Onde nunca estarei só
Espero que o meu corpo
Sirva ao chão do Seridó

Região encantadora
Postal de beleza rara
Às vezes, o paraíso
Às vezes é o Saara
Mas nem seca, nem enchente
Do meu sertão me separa

O alvorecer do dia
Com o cantar da passarada
Levantar, ainda escuro
Saborear a coalhada
Contemplar a natureza
Em ano de invernada

A sangria de um açude
O respingo do telhado
Um bezerro escramuçando
Comer milho verde assado,
Pamonha doce e canjica
Cabrito gordo guisado

Tapioca com manteiga
Uma galinha torrada
Uma buchada de bode
Mungunzá e imbuzada
Paçoca com feijão verde
Batata e Maxixada

Um fogão a lenha, aceso
Santa ceia na parede
Panela de barro, velha
O balanço de uma rede
No pote, água de chuva
Que bebo, mesmo sem sede

Cidades bem cativantes
Povo bom, manso e ordeiro
Que acolhe com simpatia
Mesmo qualquer forasteiro
Que chegar com boa fé
E respeito verdadeiro

Tal qual um ventre de mãe
Nossa morada primeira
É um berço que acolhe
De forma hospitaleira
Todos que já se banharam
Nas águas do Gargalheiras

Nosso Colosso de Rhodes
Encravado no sertão
A terceira maravilha
Destaque da região
Ícone quase sagrado
O nosso monte Sião

A vida aqui não é fácil
Não é lugar pra vaidade
Tira-se leite de pedra
Mas sobra habilidade
Pra fazer o melhor queijo
Com padrão de qualidade

Também aqui se produz
Carne de sol sem igual
Que reina absoluta
Como prato principal
Na mais exigente mesa
De cozinha regional

Mas patrimônio maior
Não está na natureza
Nem na nossa culinária
Saborosa, com certeza
É o povo do Seridó
A nossa maior riqueza. *

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

(*) Poema publicado no blog Acari do Meu Amor, em 03/06/2008. http://acaridomeuamor.nafoto.net/photo20080603133939.html

quinta-feira, 19 de março de 2009

Senado Federal


Um diretor de garagem
E um de aeroporto
Ao dispor, todo conforto
E vida de malandragem
É uma grande sacanagem
Um Estado arruinado
Acoitando viciado,
Parasita e ladrão
Que escolhe por profissão
Um emprego no Senado

Escutar de Zé Sarney:
- Tudo vai ser resolvido
Quem errou vai ser punido
Com todo rigor da lei
Na apuração que farei
Diretor desocupado
É pra ser exonerado

Mas a gratificação
Esses pilantras terão
Ao salário incorporado

Logo, logo, a imprensa
Abandona a cobertura
E a mesma estrutura
Vai voltar a ser imensa
Além dessa recompensa
Pr´esse bando de grileiro
Feita com nosso dinheiro
A quem foi exonerado
Cargos novos são criados
Mais lama para o chiqueiro