segunda-feira, 29 de junho de 2009

A Droga


Foto: Junior Santos

Esses dias, conversando com um amigo, delegado da Polícia Civil, ouvi um depoimento que me deixou preocupado. Ele relatava, em tom de desabafo, as dificuldades de combater as drogas, falando que cada vez mais o aparato policial é amordaçado e o tráfico de entorpecentes se prolifera de forma cruel e descontrolada. O Dr. Denys Carvalho, da Delegacia de Narcóticos de Mossoró, dizia: - Fazer o quê, se prendemos o usuário e a sua pena é a frequência a alguma clínica de tratamento, que o mesmo vai a uma sessão e nunca mais põe os pés lá. No outro dia está na rua saciando seu vício abertamente, sem nenhum receio. Com o advento da lei 11.343/2006, as únicas penas previstas no seu artigo 28 são: 1) Advertência sobre os efeitos das drogas; 2 ) Prestação de serviço a comunidade e 3) Medida educativa de comparecimento a programa ou curso.

Eu até aceito (em parte) que a droga é uma doença (voluntária) e como tal deve ser tratada, mas, fazer o quê com aqueles que não aceitam tratamento, nem ajuda? Condenar a sua família e a sociedade às sequelas e aos efeitos colaterais do vício?

Mais a frente, no decorrer da conversa, ele me confidencia que, em decorrência do seu ofício, já tinha presenciado muita coisa aterrorizante e isso, de certa forma, deixava o policial meio frio, insensível a situações vivenciadas, que normalmente tocaria qualquer um que não seja acostumado a testemunhá-las. Porém, recentemente tinha participado de uma missão que o tinha deixado chocado e a cena custava a sair da sua mente. Em uma investigação a uma "boca de fumo", quando da prisão de um casal de traficantes, presenciou uma criança de 8 anos se dirigindo ao local, provavelmente para comprar crack. Numa idade em que o desejo de consumo deveria ser uma bicicleta ou um outro briquedo sonhado, a droga, provavelmente, já fazia parde da vida (ou já tinha acabado com a vida) dessa criança. Será que mesmo na mente doentia de um criminoso não resta uma única gota de escrúpulo? Uma criança de 8 anos...???

Para encurtar a história, o casal de traficantes se encontra preso, cumprindo pena, pois já respondiam por outros delitos. Quanto a criança, é bem possível que tenha encontrado um outro fornecedor e esteja dando continuidade ao processo de autodestruição. Mas o danado é que o que martelava a mente do experiente delegado, acabou contaminando a minha: - Uma criança de 8 anos...??? (Sem palavras...)

A Droga

Escravizando a alma
Desassossega a família
O que era uma ilha
De tranquilidade e calma
Se transforma numa jaula
De tortura intermitente
Condenando o dependente
E quem estiver envolto
Naufragando em mar revolto
Nadando contra a corrente

Impiedosa e inclemente
A droga segue sua sina
Aniquila e extermina
Destroça qualquer vivente
Se o silêncio está presente
Então ela deita e rola
Quem pisar nela se atola
É difícil de escapar
Se o cabra não se cuidar
Ela mata e esfola

Com o apoio da escola
E enfrentando o problema
Com dedicação extrema
Todos na mesma bitola
Marcando firme, na cola
Sem dar sopa pra o azar
Hão de logo derrotar
Atuando, sem preguiça
Conselho, pais e a justiça
Terão que muito suar

Não se pode aceitar
Esse perigo, tão grande
Senão, logo ele se expande
Para tudo dominar
Se o cidadão relaxar
Então tudo está perdido
Se a cobra tiver mordido
Prefiro ficar sem soro
Que ver o maior tesouro
Pelo vício consumido

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Obstáculo - Duas Faces



Fotos: Canindé Soares (http://www.canindesoares.com/)


Dificuldades na vida
Todo mundo vai passar
O obstáculo é
A porta para entrar
Em um local desejado
Seleto e reservado
Para quem quiser ousar

O que parece um fosso
É onde fará a ponte
Onde impera a aridez
Pra lá, transporá a fonte
Nada de armar a rede
Só pare, se tiver sede
Com o sol no horizonte

O ar que destelha a casa
Também move o cata-vento
A mesma água que inunda
Põe fim ao maior tormento
O sol que nos debilita
É o que possibilita
Produzir o alimento

A enxada que arrebenta
Até couro encaliçado
É a que cuida tão bem
Do mais próspero roçado
Mesmo maltratando a mão
Deixa o corpo nobre e são
Com o dever realizado

O que parece uma grota
É o início da escalada
O temor de uma seca
Valoriza a invernada
Dificuldade existe
Nada ajuda, ficar triste
Se a carga tá pesada

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sábado, 20 de junho de 2009

Festa Junina



Ao chegar o mês de junho
O Nordeste se revela
Ornamentando-se, todo
Na beleza mais singela
Quando a sua própria cara
Com si mesmo se depara
Na sua festa mais bela

Pelos seus santos patronos
Alimenta devoção
Santo Antônio e São Pedro
Aliados a São João
Abençoando a fartura
Reforçando a bravura
De quem vive no sertão

A zabumba e o triângulo
Junto com a concertina
Fazem a trilha sonora
Que o sertanejo sublima
Xaxado, xote e baião
Legado de Gonzagão
A noite inteira anima

As brincadeiras noturnas
Tem seu cume, na quadrilha
No casamento matuto
Não só a noiva, é quem brilha
Todo mundo se diverte
Não há quem fique inerte
Nessa festa de família

Cada fogueira acesa
Sinal de veneração
Tem na sua labareda
O calor do coração
Que consola quem padece
E na noite fria, aquece
Dando luz à escuridão

O milho faz o papel
Que o trigo, santo, permeia
A pamonha e a canjica
Que é comungada na ceia
Clamam a humanidade
Ter a generosidade
Que Jesus Cristo semeia

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Luiza Gabriela



Luiza declamando o poema "Declaração de Amor da Pedra do Avião por Gargalheira", quando das comemorações do cinquentenário do açude (Foto: Vídeo Foto Galvão).


Minha homenagem a minha filha Luiza, que hoje aniversaria.

Luiza Gabriela

A estrela que mais brilha
Cintila no teu olhar
O encanto em ti repousa
Resplandece em nosso lar
A grandeza da tu'alma
Não canso de contemplar

Tem bem mais que uma amiga
Quem orbita no teu ser
A áurea que te rodeia
Apascenta meu viver
Quando distante de ti
É triste meu padecer

Difícil caminhar junto
Sinceridade e beleza
Como em ti se conjuga
Uma frágil fortaleza
Capaz de enfrentar tudo
Com desprendida nobreza

Apegada a seus princípios
Mesmo quando, em dissabores
Uma fiel criatura
Revestida de valores
Revela sua conduta
Sempre ungida de louvores

Se pudesse resumi-la
A uma tênue verdade
Expressa numa palavra
Com a sua identidade
Diria, que essa menina
Espelha a simplicidade

Doaria todo o sangue
Que do meu peito esvai
Oferecendo a Deus
Ao amor que nos atrai
Em prova de gratidão
À honra de ser teu pai

O doce da tua voz
Suave como a brisa
Seu caráter decidido
Tem a postura precisa
Da criatura de luz
Cuja a graça é Luiza

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Tempo


Foto: Vídeo Foto Galvão - Acari (RN)

A bela foto postada, de autoria de Dedé de Seu Milton Fotógrafo, não tem nada a ver com o poema. Na realidade é só para atender a um pedido que recebi, por email, de um outro Milton: o amigo cruzetense Milton Simão. Ele reivindica: "...estou sentindo falta de suas reportagens/poemas. Já virou paisagem aquela cara de quem vai e foi examinado pelo lado sul, postada em seu blog. Tire-a, por favor. Deixe as serras e os pássaros." Portanto, o objetivo da foto é, tão somente, tornar a "cara" menos visível.

Tempo

Tempo, senhor da verdade
É um carrasco cruel
Aos pouquinhos, tira o mel
E o vigor da mocidade
Inimigo da vaidade
Quando a idade acelera
O que agora exubera
No futuro se defasa
Onde outrora foi casa
Hoje jaz uma tapera

Toda tecnologia
Será logo ultrapassada
Sendo desconsiderada
Em um passe de magia
O que hoje principia
Mais à frente, não impera
O futuro não tolera
Pois o desuso empraza
Onde outrora foi casa
Hoje jaz uma tapera

Quem pensa que é imortal
E se mantém orgulhoso
Achando-se poderoso
No apego material
Nunca vê nenhum sinal
Que o tempo pra ele gera
Indicando que esta era
Passa logo e não atrasa
Onde outrora foi casa
Hoje jaz uma tapera

Conformação não terá
Quem adora a si mesmo
Caminhará só, a esmo
Quando seu tempo passar
O baque que levará
Quem o presente venera
Se não mata, desespera
A auto-estima arrasa
Onde outrora foi casa
Hoje jaz uma tapera

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Conduta Vedada



O poema abaixo é apenas uma ficção: um script de um filme de terror que passa na mente de todo pai de família, quando chega a sua hora de ir ao proctologista. Minha hora ainda não chegou.

Por mais que a situação seja constrangedora, não há justificativas para não fazer o exame. O câncer de próstata mata muito mais que se imagina e os seus principais aliados são o preconceito e a desinformação.

Curável quando detectada no início, essa doença atinge 8% dos homens com mais de 50 anos (algumas pesquisas indicam até 17%), que, caso não receba tratamento adequado e tempestivo, pode se espalhar para outras partes do corpo (metástases), tornando-se incurável.

Conduta Vedada

Em certa fase da vida
O respeito é um bem sagrado
Não pode ser profanado
De uma forma descabida
É hora de ser banida
Essa conduta vedada
Ter a honra profanada
Machuca o pai de família
Com tanta gente em Brasília
Merecendo essa dedada

Já bem na hora marcada
E eu aqui na espera
Para enfrentar a fera
Tal qual uma alma penada
Com a mente abalada
E com contrariedade:
É uma grande atrocidade
Me botar nesse papel
Com um requinte cruel
Pra um sujeito, nessa idade

É infinita maldade
Esse corredor da morte
Que meu coração suporte
Essa desumanidade
Mas se na realidade
Isso for para o meu bem
Preconceito não convém
Para que a sorte não mude
Fico com minha saúde
Prefiro dizer amém

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: Com relação ao poema "Acauã", gostaria de esclarecer que, quando digo "...sentenciada e presa..." não me refiro à gaiola ou cativeiro. Na realidade se trata de sentido figurado do aprisionamento na fama de agourenta. Não tenho conhecimento da criação doméstica da ave, nem foi esse o sentido das minhas palavras.

domingo, 31 de maio de 2009

Acauã


O belo e injustiçado falcão acauã (foto extraída da internet)

A Serra da Acauã está localizada em Acari (RN), próxima à divisa com Currais Novos (RN).
A foto foi batida de cima da Serra do Chapéu, por David Clemente.

Temos um tributo de gratidão a essa ave que empresta seu nome não só a serra acima, mas também ao rio mais importante de Acari: o Rio Acauã, que é represado pelo Açude Gargalheira.
Ela pode ser encontrada em boa parte do continente americano, que vai da Argentina, ao Sul do México, passando pelo Brasil. Fixa território nos aceiros de matas virgens e florestas, onde se alimenta basicamente de serpentes. Porém seu cardápio inclui ratos e morcegos, atuando como importante agente do equilíbrio ecológico. Infelizmente, na nossa região, recebeu o rótulo de agourenta, pecha que se alterna, em outras regiões, com a fama de mensageira da sorte, através do seu canto único e inconfundível. Sugiro o link www.avespantanal.com.br/paginas/index.htm e o www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/acaua/acaua-2.php para os que desejarem conhecer um pouco mais sobre esse belíssimo falcão.

Acauã

Dizem que seu canto é triste
Que é uma ave agourenta
Que a chuva, afugenta
Que a morte, atraíste
Dizem que descoloriste
O verde da natureza
Retirando a beleza
Tudo, em cinza, transformou
Se a acauã cantou
O eco foi a tristeza

Melodia da desgraça
Provoca ranger de dentes
Traz pavor a muitos entes
Assusta por onde passa
É uma grande ameaça
Quem escuta se acanha
A angústia se assanha
Provoca grande temor
Um som ameaçador
O azar lhe acompanha

Covardemente acusada
Sem direito a defesa
Sentenciada e presa
Sem nunca ter feito nada
Mas por que ser condenada
A uma pena que é eterna?
Mesmo assim não consterna
O homem que difamou
Maldosamente privou
Da convivência fraterna

Só os ratos e serpentes
Esses, sim, devem temê-la
Desaparecem ao vê-la
Escapolem, de repente
Continuando presentes
Ela se lança no ar
Mergulha para agarrar
Com força descomunal
Pra num aperto fatal
A sentença executar

Quem conhece ou descobre
Essa ave de rapina
Sabe que a sua sina
Não é a pecha que a cobre
Acauã é ave nobre
Merece admiração
Incansável guardião
Imponente e sagaz
De agouro, nada traz
Quanto é belo esse falcão!

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ensaio Sobre a Loucura


Esse ministro deve ser louco


Já esse deve ser são

Onde mora a loucura? Parece ser uma indagação que merece uma resposta simples e óbvia, mas andei procurando respondê-la e não consegui sequer uma aproximação. No ceticismo consciente ou na indignação juvenil? Na aceitação da legalidade amoral ou na recusa à licitude injusta? Na tolerância conivente com o repugnável ou na repulsa veemente diante das posturas não éticas? Na indiferença pragmática ou na entrega a uma causa "impossível"? No padrão promíscuo ou simplesmente na fuga do padrão?

A definição convencional da loucura me parece mais um rótulo, uma pecha colocada naquele que ousa fazer algo que falta coragem aos "são", um fardo a mais para ser carregado por quem já se encontra com um peso demasiado nas costas, próprio das causas nobres. É mais fácil taxá-lo de louco, que fazer o que foi ousado por ele. Ocupar aquela trincheira fétida? De jeito nenhum. Andar descalço, num caminho sinuoso de espinhos? Nem pensar. Então, já que falta coragem aos "são", até mesmo para um apoio moral, é mais fácil ironizar e ridicularizar, encobrindo, assim, as suas frustrações e os seus temores. Vale tudo para esconder que a sua própria luz é opaca. Até mesmo, apagar o brilho das estrelas e das constelações.

Os "sãos" são "sabidos", "vivos", "espertos", podendo ter ou não escrúpulos. Os "loucos" são "bestas", "sonhadores", "otários", que são capazes de passar por cima de tudo, menos dos seus princípios e dos seus ideais. Os "sãos" podem até sonhar com um mundo melhor, mas jamais serão capazes de mover uma única palha para isso. Só os "loucos" buscam a realização dos sonhos ditos impossíveis, mesmo que para isso custe a humilhação e a indiferença, obstáculos mais difíceis, dentre os muitos que terá de transpor.

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 19 de maio de 2009

O Papudinho







Papudinho é um sujeito
Que vive para a cachaça
Sua sede nunca passa
Esse é o seu defeito
Bebe por ser liquefeito
Sólido, comê-lo-ia
Sua sede irradia
Só não entorna dormindo
Se não estava ingerindo
É porque de febre ardia

Não existe simpatia
Nem conheço reza forte
Não há nada que conforte
Só uma cerveja fria
Se tem outra companhia
Estando em consciência
Nada tem eficiência
Pra curar a sede eterna
Só enchendo uma cisterna
E afogando a dependência

Se tá na abstinência
Quando a ressaca tá feia
Com pouco álcool na veia
Começa a turbulência
Situação de carência
Tremendo mais que toyota
Pede logo uma meiota
E toma quase dum gole
Bebendo de ficar mole
No meio fio, capota

Sua quartinha não lota
Parece esgoto geral
Chupa um imbu com sal
E logo uma ideia brota
Se encharcado, arrota
Ficando pronto pra guerra
No boteco se emperra
Com o copo não enrola
Saindo de padiola
Na hora que a farra encerra

Não tem muro, não tem serra
Pra impedir o rapaz
Na sua sede voraz
O caminho nunca erra
Parece que a cana berra
E logo o pingunça escuta
Com certeza absoluta
Advinha farra a légua
Esse filho de uma égua
Tem premonição astuta

Capaz de tomar cicuta
E nem sequer ficar tonto
Bebe até ficar pronto
Tudo que seu vício incuta
Essa é sua conduta
Um gole não satisfaz
Só a cana lhe dá paz
Emborca de copo cheio
O alcool é um devaneio
Que em sua mente jaz

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)



domingo, 17 de maio de 2009

Centro do Universo


Gargalheira, com a ilha ao meio encobrindo a represa e proporcionando uma visão separada da água que banha a vila(direita) e da água que banha a parede (esquerda)

Visão da porção localizada ao final da represa, em direção a Bulhões


Chuva registrada de cima da serra de Lagoa Seca

Feriado de primeiro de maio, dia que sucedeu às comemorações do cinquentenário de Gargalheira. Depois de um prazeroso banho de chuva em Acari, bate a vontade de dar uma olhada na chuva, de cima da Serra de Lagoa Seca, popularmente conhecida como Serra da Telern. Fazia muito tempo que não subia aquela serra, então ligo para o amigo Jesus de Miúdo, que de pronto topa o convite e juntos seguimos para o mirante, em forma de lajeiro, que existe no seu cume. Acesso fácil, subida rápida de carro e em poucos minutos estamos nós, entre nuvens, a admirar a beleza do cinquentão.

Centro do Universo

O centro do universo
Fica naquele local
Onde os sonhos orbitam
No seu eixo principal
Quimera abençoada
Quase um conto de fadas
Dentro do mundo real

Nesse canto magistral
Nosso umbigo foi cortado
E na porteira da vida
O cordão foi enterrado
O lugar que me refiro
Bem no primeiro suspiro
O viver foi inalado

Pelos ares encantados
O choro se espalhou
Esse pranto desejado
É sopro do criador
Que concebe uma vida
Em uma terra querida
Recanto de sonhador

No solo onde pisamos
No primeiro levantar
É o chão que desejamos
Poder nele descansar
Na hora que o Pai eterno
No seu abraço fraterno
Decidir nos elevar

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: Com relação à postagem anterior (Bico da Arara), gostaria de complementar o texto, respondendo ao questionamento do amigo Milton Simão, que por email me indagou a respeito da altitude da serra. A sua altura em relação ao solo, não tenho a informação, mas em relação ao nível do mar ela se encontra a 654 metros. Só para comparação, Martins fica a 760 metros do mesmo nível, Serra do Maracajá (Cerro-Corá) 691 metros e o Pico do Cabugi, em Lajes, 590 metros.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Bico da Arara


Bico da Arara visto da janela da casa, ponto de partida e de chegada


Chegada: eu e o mestre Carlilhos


Andorinhas saindo da gruta


Andorinhas próximas à gruta

.
Céu de andorinhas (pontinhos pretos desfocados)


Rio do Ingá e a casa de onde partimos e onde chegaremos


O mundo aos meu pés


Visão de dentro do Bico


Dentro do Bico. Somos um nada diante da grandeza e beleza do universo


Acesso ao Bico


Serra da Rajada, despontado em frente ao Bico


Lageiro ao lado do Bico. Meu Deus...


Vista lateral


Lajeiro ao lado do Bico


Vista de trás, um pouco à esquerda do Bico


Matando a sede com um cipó de mucunã


Pé de cambucá entre as pedras: nenhum fruto


Riacho subterrâneo


Rapadura é doce, mas né mole não


Saimos da gruta em direção ao cambucá. O rio serpenteia já distante


Portinhola de coleta do esterco, na gruta das andorinhas


O Bico se aproxima. Nos desviamos à direita, com destino à gruta


Início da subida. O Rio do Ingá vai se distanciando


Saída do Sítio Ingá, rumo ao Bico da Arara

Sábado à tarde (02/05), retornávamos eu, Zé Gentil (meu irmão) e Carlinhos de Damião da Caern, de uma vacina de gado no Sítio Cajueiro, seguindo pela estrada do Bico da Arara rumo a Acari. Ao passarmos em frente à serra que dá nome a estrada, Carlinhos sugere: - A gente podia combinar uma subida ao Bico, qualquer dia desses. Zé Gentil concorda: - Era bom não demorar, para não deixar a coisa esfriar. Então, já que deixaram a bola quicando, eu sentencio: - Vamos amanhã.

Dito e feito. Conforme combinado, quatro da matina, estou eu no café do mercado. Ligo para Zé Gentil, que já estava com uma desculpa na ponta da língua, para não ter que sair da cama, depois de um dia enfadonho. Primeira baixa. Então penso: - Será que o outro também vai desistir? Quando me preparava pra ligar, ao sair do mercado, dou de cara com o sujeito: - Viagem de pé? Pergunto eu. - E eu lá sou homem de quebrar trato. Responde o Mestre Carlinhos, de bate pronto. Entramos no carro e seguimos viagem.

Cinco e meia da manhã, estávamos nós no Sítio Ingá, em frente à casa de João Maria, morador do lugar, que se comprometeu conosco, na tarde anterior, em nos encaminhar até a vereda que conduziria a gente ao topo da serra.

O roteiro seria: 1) gruta que serve de retiro para as andorinhas, na sua rota migratória pelo Atlântico; 2) colher um fruto originário da Mata Atlântica que, na nossa região, só se tem conhecimento da sua existência na Serra do Abreu e na Serra do Bico da Arara, chamado Cambucá; 3) a última parada é o topo do Everest, Bico da Arara.

Após atravessarmos o Rio do Ingá, João Maria nos larga na vereda e seguimos serra acima, sem nenhuma pressa e com o único compromisso de admirar o que é belo. A todo instante parávamos para registrar os diversos cartões postais que iam se descerrando em todas as direções. Pegamos um desvio da vereda à direita, seguindo para a gruta que se localizava no meio da serra.

Primeira parada: chegamos em um horário que ouvíamos o diálogo das andorinhas, mas elas estavam enfurnadas e não era possível vê-las. Então demoramos pouco. Apenas batendo algumas fotos para depois seguimos para o lado esquerdo da serra, rumo ao cambucá.

Antes da segunda parada, descemos num sovaco de serra à esquerda, passando por sobre um riacho subterrâneo, onde escutávamos o chiado da água que descia serra abaixo, escondida por baixo das pedras que serviam de escudo. O líquido raro, que alimenta a vida do meu árido Seridó, murmurava: alimentava a nossa alma.

Segunda parada: decepção. Os pés de cambucás não estavam carregados. Nenhum fruto, nem sequer sementes encontramos. - Tem nada não. Será motivo para um retorno em breve, se Deus nos permitir.

Partimos para o Bico. No meio do caminho a sede aperta e é o jeito nos virarmos com a água preciosa de cipós de mucunã, antes de seguirmos rumo ao destino final. A pedra quase mítica se aproxima. Confesso que a cada passo que nos leva a ela, vou sendo tomando por uma inesperada ansiedade.

Ao chegarmos ao lajeiro vizinho, que é um pouco mais alto que o Bico, é só deslumbre: indescritível beleza. Bonito demais! A serra nos recebe com uma brisa mansa e fria, tocando nossas faces, com a sutileza de um carinho materno: um afago nos nossos corpos exaustos. Só o frescor do clima serrano já teria valido a pena todo o esforço desprendido na subida.

Aportamos no destino final: objetivo alcançado. Não há o que dizer. A única coisa a fazer é nos entregamos à contemplação da grandeza do infinito: O Grande Arquiteto do universo é O Cara.

Na volta, o cansaço começa a bater forte, mas ao vermos a revoada de andorinhas, resolvemos voltar ao local da nossa primeira parada, na subida. Infelizmente o fotógrafo não tem capacidade de um registro mais qualificado da saída da gruta. Mas é uma cena belíssima! As andorinhas parecem flechas disparadas da gruta, rumo ao céu. Projéteis alados são arremessados em uma velocidade impressionante, que só um equipamento fotográfico profissional seria capaz de paralizar aquele momento, em uma fotografia que retratasse a beleza da rajada de pássaros.

Após retornarmos ao nosso ponto de partida, um cafezinho flertando o Bico pela janela, com a sensação de objetivo atingido e apalavrando o retorno aos cambucás, para cumprirmos o único ponto da nossa missão que ficou adiada para breve.

domingo, 3 de maio de 2009

Declaração de Amor da Pedra do Avião por Gargalheiras


Foto da sangria tirada em 30/04 - Vídeo Foto Galvão - Acari (RN)


Pedra do Avião



Sessão solene da Câmara dos Deputados, no momento em que Luiza declamava o poema. - Vídeo Foto Galvão - Acari (RN)
Nesta quinta-feira passada (30/04) tivermos as comemorações do cinquentenário do nosso "Colosso de Rhodes". À tarde ocorreu uma sessão solene da Câmara dos Deputados, no Municipal Clube de Acari. Em seguida, no início da noite, foi realizada a solenidade comemorativa, ao lado da parede do açude. Finalizando a agenda festiva, um super show de Raimundo Fagner, fechando a noite com chave de ouro.

No decorrer do primeiro evento, a sessão da Câmara, tive uma dupla satisfação: A primeira, foi ter um poema selecionado para declamação naquela ocasião; a segunda, foi vê-lo declamado pela minha filha Luiza Gabriela.

Mas, sem dúvida alguma, a principal atração foi o poema das águas declamado pelo próprio Gargalheiras, em uma sangria que, em vários momentos do feriado prolongado, ultrapassou um metro de lâmina d'água. Como no final de semana também se deu o Festival do Pescado, a romaria de visitantes foi muito grande e ocorreu em grande intensidade no decorrer do dia e também durante a noite, já que a iluminação da parede possibilita a contemplação noturna.

Nota Explicativa
O poema representa uma ficção, onde a Pedra do Avião declara o seu amor ao Gargalheiras. Essa pedra na realidade é um bloco de granito que se encontra parcialmente imerso no centro das águas do açude e a sua denominação decorre da semelhança com uma aeronave desprovida de asas. Do local onde se encontra a pedra, tem-se uma visão panorâmica de praticamente toda a represa, porém não é possível a visualização do véu de noiva formado pela queda d'água da sangria, cena de grande beleza, que transforma o reservatório no ponto turístico mais reverenciado do Seridó.

De asas, eu não preciso
Pois o céu me acompanha
Essa água que me banha
Escorre do paraíso
Parece até que deslizo
Nesse mar que é meu céu
Nunca pude ver teu véu
Apesar de não ser cega
Mas não me desassossega
Esse destino cruel

Não contemplar a sangria
Mesmo estando tão perto
Ver o povo boquiaberto
Fascinado de alegria
Uma bela alvenaria
Com água nas cabeceiras
Contornando as cordilheiras
Seguindo para a parede
Para saciar a sede
Da garganta Gargalheiras

Essa cena deslumbrante
Enxergo por outro meio
No brilho do olho alheio
Do velho, moço ou infante
Num encanto radiante
Vejo a cena refletida
Na retina seduzida
Como que enfeitiçada
Mesmo estando acostumada
Sempre fico embevecida

Quando Deus tava criando
Começou pela bacia
Cada rego, Ele fazia
Num riacho, desaguando
Lado a lado se juntando
Formando um belo rio
Quase como um funil
Cercou tudo com as serras
Abençoando as terras
E lançando o desafio

Botou-me, bem lá no meio
Para ser a testemunha
Fiquei lá, roendo unha
Esperando, com anseio
Mas até que um bombardeio
Deu início a construção
Foram dias de tensão
Aguardando o final
Da obra transcendental
Colírio pra o coração

Deus fez um belo cenário
Foi o grande criador
O homem um construtor
E também um visionário
Hoje no cinquentenário
Carregada de emoção
Expresso a gratidão
A quem deu o seu suor
Trouxe vida ao Seridó
Essa realização

Uma obra tão querida
É uma jóia que brilha
A terceira maravilha
Merece ser protegida
Tratem bem cada ferida
Para dá-lhe melhor sorte
Mesmo sendo muito forte
Precisa de atenção
Sem a sua proteção
Teré a pena de morte

No brilho da lua cheia
Refletido em suas águas
Afogo todas as mágoas
Que o meu peito golpeia
Nessa água que prateia
Mergulha o meu amor
Mesmo sem forma nem cor
Ocupa todo o espaço
E como que em um abraço
Acalenta minha dor

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Sapo


A foto foi tirada próxima à parede de Gargalheira, na noite em que o açude começou a sangrar. O animal era imenso, do tamanho de um paralelepípedo e me chamou atenção. Então resolvi fotografar esse personagem que é sempre tão estigmatizado e injustiçado. Ao contrário da maioria das pessoas, sempre simpatizei com a espécie e volto a citar o meu saudosa avô Manoel José Fernandes, o Seu Bilé, como responsável por essa afeição pelo animal. Lembro a forma sempre respeitosa que ele tratava o anfíbio e o vi, muitas vezes, repreender pessoas que judiavam deles. Outro dia, conversando com Dona Bel, minha mãe, ela relembrou um fato ocorrido, em que o injustiçado foi protagonista e passarei a narrar de forma breve.

No final de uma seca vivenciada em tempos remotos, já próximo ao início do período das chuvas (se é que elas viriam), Seu Bilé (meu avô materno) mandou que cavassem uma cacimba para a bebida do gado. Infelizmente ela não deu água, mas o grande buraco ficou aberto e exposto. Vieram as chuvas e ele se encheu, servido de viveiro para os girinos. Só que, por se tratar de um buraco íngreme, após a metamorfose, os anfíbios não conseguiam sair. Então seu Bilé mandou que colocassem estacas para servir de escada e os sapos que lotavam a cacimba pudessem subir. Ele o fez despretenciosamente, só por piedade dos animais. Mas naquele ano, a lagarta atacava implacavelmente a babugem e os roçados de algodão. O que se sucedeu e que Seu Bilé, vez por outra, nos contava, foi que os sapos libertos travaram uma batalha acirrada com a praga instalada, debelando o ataque e literalmente salvando a lavoura.

Nascido pra ser cantor,
Trabalhar, fazer o bem
Só a beleza, não tem
Nem seu corpo tem calor
Mas é um ser de valor
Que trabalha a noite inteira
Combatendo na trincheira
Qualquer inseto ou praga
Sua língua é uma adaga
De estocada certeira

Na noite faz sua feira
Sem cochilar um segundo
Faz a faxina do mundo
Sem parar ou fazer cera
De dia tá na ribeira
Ou dormindo na lagoa
Na hora quente se amoa
Espera a noite chegar
Para logo trabalhar
Quando chega a hora boa

Não tem pressa e não voa
Mas é bicho eficiente
Passando a sua frente
Sua língua não perdoa
Rapidamente arpoa
Como o laço de um vaqueiro
Eficiente e certeiro
Se ele pegar, não solta
Com a língua dá uma volta
E recolhe-a ligeiro

Tem um bicho traiçoeiro
Que vive na covardia
Por ter-lhe antipatia
Sem motivo verdadeiro
Quando pega, no terreiro
Bota brasa a sua frente
Para engolir, de repente
E gozar da sua dor
Matando o trabalhador
Por ele ser diferente

Não comendo a brasa ardente
Não está salvo do mal
Pois podem colocar sal
Atitude inclemente
Matando o pobre vivente
Que já nasceu condenado
Mesmo não sendo culpado
Um juiz sem coração
Executa sem perdão
Seu algoz é um desalmado

Ser feio e malamanhado,
Estranho e diferente
É o pecado desse ente
Para ser discriminado
Cruelmente desprezado
Sem nada que justifique
Que alguém lhe crucifique
Só por não portar beleza
Faço a sua defesa:
Não o judeie, não o sacrifique

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sangria da Barragem de Umari



















Sempre tive um verdadeiro fascínio pelas sangrias de açudes. Independente do porte do reservatório e da beleza proporcionada pelo evento, a sinalização de que a sua cota máxima foi atingida anuncia que a prosperidade e a bonança pairam sobre nossas cabeças. A espuma branca que jorra pelo sangradouro não é só colírio: é um bálsamo para a alma. Apaga todo o sofrimento da temporada árida passada e repõe as forças do sertanejo, dando-lhe a disposição necessária ao enfrentamento de novas jornadas.

Ontem (26/04), pela manhã, estive na Barragem de Umari, localizado à 8 km da cidade de Upanema. Trata-se do terceiro maior reservatório do estado, com capacidade 292 milhões de metros cúbicos e represa o Rio do Carmo, pertencente a bacia Apodi/Mossoró. Concluída em 2002, a barragem ainda não tinha sangrado, fato que veio a ocorrer pela primeira vez nesta quinta-feira (23/04).

São 2,3 km de extensão do coroamento da parede, toda feita em concreto compactado. É uma obra realmente fantástica, para não dizer faraônica (sem conotação pejorativa). No ponto mais alto, a parede chega a 42 metros de altura e o seu lago ocupa uma área de 3,5 mil hectares. Numa breve comparação com o nosso cinquentenário açude, são cinco Gargalheiras em área do lago e mais de sete, em volume de água.

O ponto negativo é que não há estrutura alguma de atendimento a ser oferecida aos visitantes. Nem mesmo algo precário. Mas como os olhos não necessitam dela (a não ser, de óculos, às vezes) para a contemplação, isso não é problema. Aos que se dispuserem ao "sacrifício" de conhecer a barragem, aconselho levar, além da câmera fotográfica, água ou a bebida de sua preferência.