quinta-feira, 30 de julho de 2009

Festa da Padroeira


Convite da Festa de Nsa Sra da Guia de 2008 - Imagem intacta, sem mutilações.

No ano passado (2008), já no finalzinho de julho, vésperas da Festa de Agosto, mandei um email para o amigo Jesus de Miúdo. Naquela ocasião, o email foi por ele publicado em seu blog (Link da postagem original: http://acaridomeuamor.nafoto.net/photo20080729182731.html).

Como uma nova Festa de Agosto se aproxima, replico neste espaço a postagem mencionada, em que eu me referia a um livro que até hoje não canso de eventualmente folhear.

Desejo a todos os acarienses e devotos de Nossa Sra da Guia, uma boa Festa de Agosto, clamando por um pouco de respeito mútou entre conterrâneos. Julgo que a ocasião é sempre oportuna. Acari precisa de um pouco de paz e todos são responsáveis por ela. Se cada um fizer a sua parte e der um passo a frente, a distância se encurta e é possível alçançar a mão da pessoa que você alimenta mágoa, para um aperto.

Segue, abaixo, o conteúdo do email/postagem:

Estou terminando de ler, quase de uma pegada só, uma preciosidade que encontrei este final de semana em uma livraria local. Falo de um livro que deveria estar na cabeceira de todos os seridoenses. A obra-prima é “Velhos Costumes do Meu Sertão” de Juvenal Lamartine (*1874 +1956). Em 1954, já cego e afastado da vida pública, Juvenal passou a escrever, secretariado pelo neto que estivesse desocupado, para o jornal Tribuna do Norte. Essas matérias foram posteriormente condensadas nesse livro que é um retrato fiel do nosso passado, com grande semelhança com o presente.

O desenvolvimento, a interação e a miscigenação cultural, a alteração na valoração das coisas e dos costumes, provocaram grandes mudanças no dia-a-dia do sertanejo. Mas a essência permanece. A hospitalidade, a mesa farta, a busca pelo conhecimento, a obediência e respeito aos progenitores e muitas outras características seculares do seridoense, mudaram de forma, mas não de essência.

Achei interessante o trecho abaixo, no capítulo onde são abordadas as festas religiosas e populares, porque parece que neste caso não sofreu alteração alguma:

A festa religiosa de maior importância naqueles sertões era a da padroeira. Constava de nove noites de novena e da missa cantada com sermão no dia de seu encerramento. As novenas terminavam com fogos de artifício e girândolas de foguetões, dependendo a abundância desses fogos da liberalidade dos encarregados de cada noite festiva
Na sede da freguesia, abriam-se as “casas da rua” , onde ficavam seus proprietários, ou seja, os fazendeiros com suas famílias. As mulheres se valiam daqueles dias para exibirem as suas melhores “toilettes” e jóias de mais elevado valor. Na oportunidade da menor distância, os fazendeiros e suas famílias trocavam visitas, estreitando as relações de amizade e parentesco. Na última noite da festa, promoviam os rapazes um grande baile, onde habitualmente nasciam namoros e noivados, entrelaçando as velhas famílias sertanejas. O costume tem sobrevivido. A festa da padroeira ainda representa o ponto alto dos festejos sertanejos, modificada naturalmente pelos elementos da civilização – automóveis e a energia elétrica.

A diferença mais sensível é que ao invés de uma predominância na mudança das fazendas para a sede da freguesia, hoje ocorre a mudança de outras freguesias (já que a nação seridoense hoje está espalhada por todo o territorial nacional) para a sede dos festejos. Nossas “fazendas” de hoje são os ofícios diversos que a vida nos reservou e que em tempos de festa, abandonamos para comungar de momentos únicos de religiosidade e congraçamento.

Imagem Mutilada



Esta semana tomei conhecimento de mais um capítulo da insana disputa política que corroi Acari. Pelo jeito, a campanha eleitoral ainda não acabou e vai se estender, ao menos, pelos próximos 4 anos, com o agravante de não haver mais nenhuma limitação de escrúpulos. Dessa vez foram transpostas as últimas barreiras da educação e respeito às pessoas, com o ataque aos seus valores e a sua religião. Imagino que a pratica de atos impensados tenha chegado ao cume. Ou ainda não chegou? Será que é possível que se cometa uma afronta moral maior que a profanação da religião? Será que há algo nesse mundo que justifique a ridicularização de uma imagem que representa a fé, desrespeitando a crença de toda uma população de fieis?

Elaborar o convite da festa, trocando o padrão de letras, pelo padrão do símbolo da campanha de Garibaldi (G), já foi um abuso. Agora, retirar a estrela de Nossa Sra da Guia e amputar o seu dedo indicador, para dar destaque ao polegar erquido, foi uma agressão sem par. Não é simplesmente um ataque à uma outra corrente política. É uma agressão a todo um povo e a sua religiosidade. Não consigo entender como uma mente insana tem a "genialidade" de criar algo tão sem propósito como o que foi feito. Será que realmente quem tramou isso acha que ganhará algum voto? O mentor intelectual com certeza é o mais perfeito idiota, mas não é burro. Sabe que, quando muito, vai conseguir conquistar a simpatia de um ou outro pagão que sofre da mesma patologia espiritual dele.

O indivíduo assexuado certamente é cria de si mesmo, por isso lhe falta o valor mais básico do ser humano, que é o respeito a figura materna. O pior é que provavelmente quem praticou tal profanação provavelmente vai dizer que tudo não passou de uma falha da gráfica. Ou melhor, duas falhas da gráfica. Duas não, três falhas da gráfica. Onde sobra disposição para arquitetar uma bestialidade como essa, falta coragem para assumir. Provavelmente vai justificar dizendo que a estrela guia, principal característica dessa imagem de Maria, estava borrada e a gráfica resolveu retirá-la, assim como amputou o dedo indicador da imagem. Por conta própria, também, a gráfica, "coincidentemente", se utilizou do mesmo padrão de letras do símbolo de campanha de Garibaldi. É bem provável até, que a gráfica seja forçada a se pronunciar, assumindo os três erros.

Não creio que a maior parte dos que fazem o PMDB de Acari apoiem tais "ações de marketing". Também não acredito que os patrocinadores do convite tenham concordado com a sua elaboração nesses moldes. Por isso, julgo que seja de bom grado a repulsa veemente por parte de todos, independentemente de partido. A sua defesa ou justificativa soa como cumplicidade. O espírito de porco que idealizou o convite, certamente, como ateu herege que o é, está rindo de tudo e de todos. Pena que do seu caráter não jorre uma única gota de hombridade para assumir o que fez, inocentando as muitas pessoas de bem que compõem o PMDB acariense.

PS: Não acatarei nenhum comentário de apoio ou de crítica. Não é interesse meu dar continuidade a polêmica. Apenas resolvi me pronunciar porque certas coisas para mim são inalienáveis. Sei que a reação mais correta e prudente é a resignação. Mas, nesse caso, calar vai soar como um consentimento ou uma aceitação e, definitivamente, não consinto nem aceito o que foi feito.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Festa da Colheita de Cruzeta (RN)


Luiza declamando o poema

Nossa participação

José Gentil (Til) e eu puxando o burrinho gazo pelo cabresto. Logo atrás, Gustavo Braz, Antônio (filho de Neto de Benedita) e Pedro Pires

O Grupo de Cavalvalgadas Acauã

As jovens amazonas Tereza Raquel e Luiza Gabriela.
Mário Manoel (Mário de Dr. Pedro) e José Gentil (Til)

Os quatro primeiros, da esqueda pra direita, são: José Moré, Til, Antônio Vaqueiro e Mário.
Os demais não foi possível identificar.

Abrindo o desfile, Juca Ramos e Antônio Vaqueiro. Na segunda fila, Til e Mário.

Mário Manoel (Mário de Dr. Pedro), Antônio Vaqueiro e Carlos Dantas (Carlinhos de Jecy)
OBS: Todas as fotos em preto e branco são do final da década de 60, mas infelizmente não conseguimos precisar o ano.


Domingo passado (19/07) foi realizada a 49ª Festa da Colheita de Cruzeta (RN), evento de grande tradição e que movimenta toda a cidade. Após a missa, deu-se o desfile de agricultores e de montarias pelas ruas do centro, com a benção do pároco defronte a igreja matriz de N. Sra. dos Remédios. As comemorações se estenderam por toda a manhã e início da tarde, na Escola Municipal Cônego Ambrósio Silva, e contou com a presença de várias autoridades locais e regionais. Além do anfitrião, prefeito de Cruzeta Sally Araujo, estiveram presentes o vice-governador Iberê Ferreira de Souza, o prefeito de Acari, Antônio Carlos (Tom), o prefeito de São Fernando, Genildo Maia. No decorrer das festividades ocorreu o sorteio de vários prêmios, dentre eles, 22 novilhas ofertadas aos participantes.

O Grupo de Cavalgadas Acauã, de Acari, do qual fazemos parte, esteve presente ao evento pelo segundo ano consecutivo e na ocasião foi convidado a dar uma palavra. Em nome do Grupo, agradecemos o convite e a acolhida, parabenizando o homem do campo, o grande protagonista da festa. Prestamos um tributo de reconhecimento e gratidão a Antônio Vicente (in memoriam) ou Antônio Vaqueiro, pela sua dedicação às realizações dos desfiles no passado. Também, utilizando-se da sua pessoa, estendemos a todos os funcionários e ex-funcionários da Estação Experimental de Cruzeta, hoje Emparn, a nossa gratidão pelos relevantes serviços prestados a agricultura e pecuária do Seridó e de todo estado do RN. Ao final da nossa participação, foi declamado por minha filha Luiza o poema “Pega de Gado”. Link do poema: http://seridopintadocompalavras.blogspot.com/2009/03/pega-de-gado.html

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Salmo 104


Foto: Canindé Soares

Confesso que, apesar de católico temente a Deus, não sou tão praticamente quanto deveria ser. Também não costumo me debruçar sobre o livro dos livros com a frequência que deveria. É muito comum nos lembrarmos da existência da bíblia sagrada apenas nos momentos de angústia ou de dificuldades. Dificilmente a folheamos sem uma motivação forte, seja para alimentar nossa alma ou simplesmente como forma de reforçar nossa fé. Assim como só costumamos nos dirigir a Deus para pedir. Não é muito comum nos dirigirmos ao Pai para agradecer as coisas simples que Ele nos dá todos os dias, sem que peçamos.

Ontem (21/07), quando da abertura de uma reunião de trabalho, sabendo, um colega, que a pauta era pesada, pediu licença aos presentes e leu o Salmo 104 da bíblia sagrada, que achei belíssimo. Para mim, o que seria uma reunião tensa, foi uma reunião amena, assim como ameno foi todo o meu dia de ontem. Gostaria de compartilhar com os que costumam frequentar este espaço, estas poéticas e sábias palavras:

Salmo 104

..tu que te cobres de luz como de um manto, que estendes os céus como uma cortina. És tu que pões nas águas os vigamentos da tua morada, que fazes das nuvens o teu carro, que andas sobre as asas do vento; que fazes dos ventos teus mensageiros, dum fogo abrasador os teus ministros. Lançaste os fundamentos da terra, para que ela não fosse abalada em tempo algum. Tu a cobriste do abismo, como dum vestido; as águas estavam sobre as montanhas. À tua repreensão fugiram; à voz do teu trovão puseram-se em fuga. Elevaram-se as montanhas, desceram os vales, até o lugar que lhes determinaste. Limite lhes traçaste, que não haviam de ultrapassar, para que não tornassem a cobrir a terra. És tu que nos vales fazes rebentar nascentes, que correm entre as colinas. Dão de beber a todos os animais do campo; ali os asnos monteses matam a sua sede. Junto delas habitam as aves dos céus; dentre a ramagem fazem ouvir o seu canto. Da tua alta morada regas os montes; a terra se farta do fruto das tuas obras. Fazes crescer erva para os animais, e a verdura para uso do homem, de sorte que da terra tire o alimento, o vinho que alegra o seu coração, o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que lhe fortalece o coração. Saciam-se as árvores do Senhor, os cedros do Líbano que ele plantou, nos quais as aves se aninham, e a cegonha, cuja casa está nos ciprestes. Os altos montes são um refúgio para as cabras montesas, e as rochas para os querogrilos. Designou a lua para marcar as estações; o sol sabe a hora do seu ocaso. Fazes as trevas, e vem a noite, na qual saem todos os animais da selva. Os leões novos os animais bramam pela presa, e de Deus buscam o seu sustento. Quando nasce o sol, logo se recolhem e se deitam nos seus covis. Então sai o homem para a sua lida e para o seu trabalho, até a tarde. Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras! Todas elas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas. Eis também o vasto e espaçoso mar, no qual se movem seres inumeráveis, animais pequenos e grandes. Ali andam os navios, e o leviatã que formaste para nele folgar. Todos esperam de ti que lhes dês o sustento a seu tempo. Tu lho dás, e eles o recolhem; abres a tua mão, e eles se fartam de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respiração, morrem, e voltam para o seu pó. Envias o teu fôlego, e são criados; e assim renovas a face da terra. Permaneça para sempre a glória do Senhor; regozije-se o Senhor nas suas obras; ele olha para a terra, e ela treme; ele toca nas montanhas, e elas fumegam...

Amém!!!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dia do Amigo



Hoje é dia do amigo. Todos nós temos um patrimônio incalculável e muitas vezes não valorizado, que são os nossos amigos. Costuma-se dizer que é muito difícil encontrar um amigo de verdade; que poucos são os que merecem a nossa amizade. Penso um pouco diferente. Claro que existe aquele amigo capaz de entrar no fogo junto conosco e existe aquele outro amigo que praticamente só se relaciona no trabalho. Mas ambos são nossos amigos, embora em níveis diferentes de afetividade e apreço. O grande problema, muitas vezes, está em nós, em não aceitarmos as pessoas como elas são ou não termos a tolerância que deveríamos ter.

Quer ter amigos? Seja tolerante e sincero, que a amizade naturalmente se estabelecerá. Seja maleável, ceda, quando a situação aconselhar. Não tenha palavra de rei. Reposicione-se ao reconhecer seus erros. Isso é sinal de inteligência e grandeza. Quer manter amigos? A receita é a mesma.

Um forte abraço em todos os meus amigos!!!


Amizade

Não existe escuridão
A luz é que está ausente
O frio só se propaga
Se o calor não tá latente
A morte nada mais é
Que a vida decadente

Assim é a inimizade
Que pra poder prosperar
Necessita da ausência
Do desejo de aceitar
Quando não existe ânimo
Nenhum, pra tolerar

Se não há disposição
Alguma, para ceder
Em hipótese nenhuma
Se procura esquecer
Então a inimizade
É o que vai prevalecer

Não há remédio melhor
Pra aquecer o coração
Que clarificar as coisas
Á luz da compreensão
Protegendo-se do frio
Na chama de um perdão

Existindo tolerância
Numa relação fraterna
Disposição pra ceder
Quando a razão se alterna
Então irá desfrutar
De uma amizade eterna

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Força da Natureza



De férias em Acari, tenho passado mais tempo no sítio que na cidade. A zona rural está mais bela que nunca. O verde proporcionado pelo excepcional ano de inverno é como o nascimento de uma criança, que apaga da mãe toda a dor do parto, no caso, a dor da seca.

Não sei se é impressão minha ou se é o passar dos anos que desperta em nós uma maior sensibilidade às belezas que nos rodeiam, mas o fato é que me ocorre a nítida percepção que a vida tem explodido, ressurgindo das cinzas, no ambiente hostil dessas paragens do semi-árido nordestino. Tenho percebido uma população cada vez maior de pássaros colorindo os nossos céus sempre tão ensolarados. Galos de campina, concrizes, periquitos e muitos outros têm se mostrado aos bandos, numa sinfonia de cor e canto que encanta e apascenta. Ontem (14/07), ao entardecer, quando retornava do sítio, deparei-me com uma sariema (“seriema” não me agrada, soa estranho, como se fosse um outro animal) na estrada e, por sorte, andava com a câmera que fiz o registro de dentro do carro, mesmo com pouca qualidade, mas representativo de um testemunho da manutenção da vida. Há algum tempo atrás, encontrar uma sariema em um local que não fosse remoto e completamente desabitado, era algo muito raro. Hoje é muito comum ouvir o seu canto, mesmo em locais relativamente próximos da "vida cilizada".

Não sei se essa constatação decorre da atuação mais contundente do Ibama ou da consciência ambiental que começa a ganhar vulto ou dos últimos anos de bom inverno ou desses fatores todos somados, opção que julgo mais pertinente. Mas acho louvável o rigor na atuação dos órgãos públicos de proteção à natureza e rogo para que cada vez mais essa atuação imponha medo aos agressores da nossa frágil e agonizante fauna.

O Caçador

Tanto faz, se a arma é um cachorro
Se é branca, de fogo ou baladeira

Caçador é um poço de asneira
Contra ele eu elevo o meu desforro

Qualquer um bicho bruto, eu socorro
Mas sendo um caçador, pego e amarro

Predador racional, se nele esbarro

Piso em cima, esculacho e esmurro
Eu espanto, recanto e empurro

Tiro sarro, critico e escarro


Passando num roçado ele se apeia

A fartura que existe não escapa
Se não der pra levar, guarda o mapa
E no dia seguinte surrupeia
Com o suor dos outros faz a ceia
Do trabalho alheio se apossa
Vai tomando de conta, toda a roça
Fazendo sua feira, sem demora
Melancia madura, ele devora
Não estando no ponto, ele destroça

Se encontra um açude no cercado

Analisa se o peixe é abundante

Se o local é escondido ou distante

Sendo assim já o deixa reservado

Vem à noite e leva o pescado
Para trás fica o rastro de arruaça
Um cabrito no mato, vira caça

O arame da cerca, ele folga
Vida fácil, desordem lhe empolga
E o furto que fez vira cachaça


Sou pacato, não quero confusão

De confronto, eu só quero distância
Me afasto de qualquer arrogância
Mas quero muito vê-lo na prisão
Minha ação é uma tênue ilusão
Tudo que nos meus versos relatei
O que disse que faço, não farei
Se fizer, vai ser só em pensamento

Sonhando me livrar desse tormento

Caçador? Ou é um fora da lei?

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Burro Mulo


O animal acima é um muar excepcionalmente raro e belo, de quatro meses de idade. Trata-se de um burro mulo gazo, ou seja, albino, que além dessa alteração genética na pigmentação, ainda tem um sinal frontal branco na cabeça (careto) e um outro sinal preto próximo à orelha.


O burrinho brincando com um outro muar de pigmentação convencional, para comparação.


A criaturinha desfilando no campo.

A história do desbravamento do interior do nordeste brasileiro está intimamente relacionada com o uso de muares (burros mulos) e asininos (jumentos). Esses animais foram utilizados pelos primeiros colonizadores para o transporte de cargas e de pessoas em direção aos sertões mais longínquos. Como as terras mais próximas ao litoral eram bastante férteis e adequadas ao cultivo da cana-de-açúcar, base da economia mercantilista da época, a coroa proibia a criação de gado próximo a faixa litorânea, restando as áreas menos férteis e mais áridas do interior, para o criatório de gado.

Num primeiro momento, além das condições naturais adversas, a presença indígena hostil praticamente inibiu qualquer movimento mais efetivo de povoamente. Porém, após a Guerra dos Bárbaros, batalha que culminou na quase extinção das populações indígenas, o Seridó Potiguar se tornou destino de um movimento migratório de colonização mais abrangente. Não só o transporte de pessoas e de mercadorias passou a demandar a força animal: o manejo dos rebanhos bovinos e a necessidade da tração animal para a construção dos primeiros reservatórios de água que amenizariam os efeitos das secas, demandaram animais fortes e resistentes ao clima e a seca. O jumento e o burro, com suas características de rusticidade e força, adaptaram-se perfeitamente a essas situações e passaram a fazer parte do cotidiano do nordestino, seja como veículo de transporte ou como ferramenta de trabalho. Os viajantes, os tropeiros, os tangerinos se utilizavam deles para os extensos e inóspitos percursos trafegados, transportando gado, mantimentos ou simplesmente pessoas.

Com o passar do tempo, com a automação e a modernização, o jumento passou a ser muito menos útil. Porém, o burro mulo continua extremamente importante no manejo bovino e no transporte nas propriedades rurais, sendo muito valorizado e reconhecido pela sua utilidade, situação que não abrange a espécie asinina. Infelizmente é muito comum ver animais da espécie desprezados às margens das rodovias.

PS: O muar ou burro mulo é fruto do cruzamento de duas espécies distintas: o jumento ou asinino, com o cavalo ou equino. O resultado do cruzamento é um híbrido infértil que reune as características de velocidade e versatilidade do cavalo, e a resistência e rusticidade do jumento.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Aflição


Foto: Vídeo Foto Galvão

Não creio que o camaleão que Dedé de Seu Milton Lopes conseguiu flagrar contemplando as belezas do nosso Gargalheira, sofra qualquer espécie de aflição. O réptil pode até não imaginar que tem tudo, mas com certeza tem.

O espaço existente
Entre a paz e a aflição
É trilha que o coração
Perambula sem a mente
Quase que inconsciente
Com a lucidez peralta
A insensatez exalta
Instigando o frágil ser
Que imagina tudo ter
Mas no fundo tudo falta

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Tempo II


Foto: Canindé Soares

O tempo que nos afasta
É o tempo que aproxima
Capaz de apagar mágoa
Remédio pra quem lastima
Alívio pro coração
Cura até desilusão
Que a cega paixão vitima

Refúgio pra qualquer mal
Reparo à agressão
Sem nada de imediato
Que traga consolação
Não tendo outro advento
Que sossegue um tormento
O tempo dá solução

Faz o fraco ficar forte
O pequeno, faz crescer
Quem é novo envelhece
O velho, faz renascer
Muda os nossos caminhos
Troca flores por espinhos
Nos ensinando a vencer

Com o tempo, uma rosa
Desabrocha do botão
Seu perfume e encanto
Logo estarão no chão
Mas o símbolo fraterno
Permanecerá eterno
Cumprindo a sua missão

Tudo muda, tudo passa
Aqui nada é eterno
Produzimos no futuro
Cultivando no inverno
Quem esbanja todo o mel
Hoje a vida é um “ceu”
Amanhã será “inferno”

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A Droga


Foto: Junior Santos

Esses dias, conversando com um amigo, delegado da Polícia Civil, ouvi um depoimento que me deixou preocupado. Ele relatava, em tom de desabafo, as dificuldades de combater as drogas, falando que cada vez mais o aparato policial é amordaçado e o tráfico de entorpecentes se prolifera de forma cruel e descontrolada. O Dr. Denys Carvalho, da Delegacia de Narcóticos de Mossoró, dizia: - Fazer o quê, se prendemos o usuário e a sua pena é a frequência a alguma clínica de tratamento, que o mesmo vai a uma sessão e nunca mais põe os pés lá. No outro dia está na rua saciando seu vício abertamente, sem nenhum receio. Com o advento da lei 11.343/2006, as únicas penas previstas no seu artigo 28 são: 1) Advertência sobre os efeitos das drogas; 2 ) Prestação de serviço a comunidade e 3) Medida educativa de comparecimento a programa ou curso.

Eu até aceito (em parte) que a droga é uma doença (voluntária) e como tal deve ser tratada, mas, fazer o quê com aqueles que não aceitam tratamento, nem ajuda? Condenar a sua família e a sociedade às sequelas e aos efeitos colaterais do vício?

Mais a frente, no decorrer da conversa, ele me confidencia que, em decorrência do seu ofício, já tinha presenciado muita coisa aterrorizante e isso, de certa forma, deixava o policial meio frio, insensível a situações vivenciadas, que normalmente tocaria qualquer um que não seja acostumado a testemunhá-las. Porém, recentemente tinha participado de uma missão que o tinha deixado chocado e a cena custava a sair da sua mente. Em uma investigação a uma "boca de fumo", quando da prisão de um casal de traficantes, presenciou uma criança de 8 anos se dirigindo ao local, provavelmente para comprar crack. Numa idade em que o desejo de consumo deveria ser uma bicicleta ou um outro briquedo sonhado, a droga, provavelmente, já fazia parde da vida (ou já tinha acabado com a vida) dessa criança. Será que mesmo na mente doentia de um criminoso não resta uma única gota de escrúpulo? Uma criança de 8 anos...???

Para encurtar a história, o casal de traficantes se encontra preso, cumprindo pena, pois já respondiam por outros delitos. Quanto a criança, é bem possível que tenha encontrado um outro fornecedor e esteja dando continuidade ao processo de autodestruição. Mas o danado é que o que martelava a mente do experiente delegado, acabou contaminando a minha: - Uma criança de 8 anos...??? (Sem palavras...)

A Droga

Escravizando a alma
Desassossega a família
O que era uma ilha
De tranquilidade e calma
Se transforma numa jaula
De tortura intermitente
Condenando o dependente
E quem estiver envolto
Naufragando em mar revolto
Nadando contra a corrente

Impiedosa e inclemente
A droga segue sua sina
Aniquila e extermina
Destroça qualquer vivente
Se o silêncio está presente
Então ela deita e rola
Quem pisar nela se atola
É difícil de escapar
Se o cabra não se cuidar
Ela mata e esfola

Com o apoio da escola
E enfrentando o problema
Com dedicação extrema
Todos na mesma bitola
Marcando firme, na cola
Sem dar sopa pra o azar
Hão de logo derrotar
Atuando, sem preguiça
Conselho, pais e a justiça
Terão que muito suar

Não se pode aceitar
Esse perigo, tão grande
Senão, logo ele se expande
Para tudo dominar
Se o cidadão relaxar
Então tudo está perdido
Se a cobra tiver mordido
Prefiro ficar sem soro
Que ver o maior tesouro
Pelo vício consumido

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Obstáculo - Duas Faces



Fotos: Canindé Soares (http://www.canindesoares.com/)


Dificuldades na vida
Todo mundo vai passar
O obstáculo é
A porta para entrar
Em um local desejado
Seleto e reservado
Para quem quiser ousar

O que parece um fosso
É onde fará a ponte
Onde impera a aridez
Pra lá, transporá a fonte
Nada de armar a rede
Só pare, se tiver sede
Com o sol no horizonte

O ar que destelha a casa
Também move o cata-vento
A mesma água que inunda
Põe fim ao maior tormento
O sol que nos debilita
É o que possibilita
Produzir o alimento

A enxada que arrebenta
Até couro encaliçado
É a que cuida tão bem
Do mais próspero roçado
Mesmo maltratando a mão
Deixa o corpo nobre e são
Com o dever realizado

O que parece uma grota
É o início da escalada
O temor de uma seca
Valoriza a invernada
Dificuldade existe
Nada ajuda, ficar triste
Se a carga tá pesada

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sábado, 20 de junho de 2009

Festa Junina



Ao chegar o mês de junho
O Nordeste se revela
Ornamentando-se, todo
Na beleza mais singela
Quando a sua própria cara
Com si mesmo se depara
Na sua festa mais bela

Pelos seus santos patronos
Alimenta devoção
Santo Antônio e São Pedro
Aliados a São João
Abençoando a fartura
Reforçando a bravura
De quem vive no sertão

A zabumba e o triângulo
Junto com a concertina
Fazem a trilha sonora
Que o sertanejo sublima
Xaxado, xote e baião
Legado de Gonzagão
A noite inteira anima

As brincadeiras noturnas
Tem seu cume, na quadrilha
No casamento matuto
Não só a noiva, é quem brilha
Todo mundo se diverte
Não há quem fique inerte
Nessa festa de família

Cada fogueira acesa
Sinal de veneração
Tem na sua labareda
O calor do coração
Que consola quem padece
E na noite fria, aquece
Dando luz à escuridão

O milho faz o papel
Que o trigo, santo, permeia
A pamonha e a canjica
Que é comungada na ceia
Clamam a humanidade
Ter a generosidade
Que Jesus Cristo semeia

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Luiza Gabriela



Luiza declamando o poema "Declaração de Amor da Pedra do Avião por Gargalheira", quando das comemorações do cinquentenário do açude (Foto: Vídeo Foto Galvão).


Minha homenagem a minha filha Luiza, que hoje aniversaria.

Luiza Gabriela

A estrela que mais brilha
Cintila no teu olhar
O encanto em ti repousa
Resplandece em nosso lar
A grandeza da tu'alma
Não canso de contemplar

Tem bem mais que uma amiga
Quem orbita no teu ser
A áurea que te rodeia
Apascenta meu viver
Quando distante de ti
É triste meu padecer

Difícil caminhar junto
Sinceridade e beleza
Como em ti se conjuga
Uma frágil fortaleza
Capaz de enfrentar tudo
Com desprendida nobreza

Apegada a seus princípios
Mesmo quando, em dissabores
Uma fiel criatura
Revestida de valores
Revela sua conduta
Sempre ungida de louvores

Se pudesse resumi-la
A uma tênue verdade
Expressa numa palavra
Com a sua identidade
Diria, que essa menina
Espelha a simplicidade

Doaria todo o sangue
Que do meu peito esvai
Oferecendo a Deus
Ao amor que nos atrai
Em prova de gratidão
À honra de ser teu pai

O doce da tua voz
Suave como a brisa
Seu caráter decidido
Tem a postura precisa
Da criatura de luz
Cuja a graça é Luiza

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Tempo


Foto: Vídeo Foto Galvão - Acari (RN)

A bela foto postada, de autoria de Dedé de Seu Milton Fotógrafo, não tem nada a ver com o poema. Na realidade é só para atender a um pedido que recebi, por email, de um outro Milton: o amigo cruzetense Milton Simão. Ele reivindica: "...estou sentindo falta de suas reportagens/poemas. Já virou paisagem aquela cara de quem vai e foi examinado pelo lado sul, postada em seu blog. Tire-a, por favor. Deixe as serras e os pássaros." Portanto, o objetivo da foto é, tão somente, tornar a "cara" menos visível.

Tempo

Tempo, senhor da verdade
É um carrasco cruel
Aos pouquinhos, tira o mel
E o vigor da mocidade
Inimigo da vaidade
Quando a idade acelera
O que agora exubera
No futuro se defasa
Onde outrora foi casa
Hoje jaz uma tapera

Toda tecnologia
Será logo ultrapassada
Sendo desconsiderada
Em um passe de magia
O que hoje principia
Mais à frente, não impera
O futuro não tolera
Pois o desuso empraza
Onde outrora foi casa
Hoje jaz uma tapera

Quem pensa que é imortal
E se mantém orgulhoso
Achando-se poderoso
No apego material
Nunca vê nenhum sinal
Que o tempo pra ele gera
Indicando que esta era
Passa logo e não atrasa
Onde outrora foi casa
Hoje jaz uma tapera

Conformação não terá
Quem adora a si mesmo
Caminhará só, a esmo
Quando seu tempo passar
O baque que levará
Quem o presente venera
Se não mata, desespera
A auto-estima arrasa
Onde outrora foi casa
Hoje jaz uma tapera

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Conduta Vedada



O poema abaixo é apenas uma ficção: um script de um filme de terror que passa na mente de todo pai de família, quando chega a sua hora de ir ao proctologista. Minha hora ainda não chegou.

Por mais que a situação seja constrangedora, não há justificativas para não fazer o exame. O câncer de próstata mata muito mais que se imagina e os seus principais aliados são o preconceito e a desinformação.

Curável quando detectada no início, essa doença atinge 8% dos homens com mais de 50 anos (algumas pesquisas indicam até 17%), que, caso não receba tratamento adequado e tempestivo, pode se espalhar para outras partes do corpo (metástases), tornando-se incurável.

Conduta Vedada

Em certa fase da vida
O respeito é um bem sagrado
Não pode ser profanado
De uma forma descabida
É hora de ser banida
Essa conduta vedada
Ter a honra profanada
Machuca o pai de família
Com tanta gente em Brasília
Merecendo essa dedada

Já bem na hora marcada
E eu aqui na espera
Para enfrentar a fera
Tal qual uma alma penada
Com a mente abalada
E com contrariedade:
É uma grande atrocidade
Me botar nesse papel
Com um requinte cruel
Pra um sujeito, nessa idade

É infinita maldade
Esse corredor da morte
Que meu coração suporte
Essa desumanidade
Mas se na realidade
Isso for para o meu bem
Preconceito não convém
Para que a sorte não mude
Fico com minha saúde
Prefiro dizer amém

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: Com relação ao poema "Acauã", gostaria de esclarecer que, quando digo "...sentenciada e presa..." não me refiro à gaiola ou cativeiro. Na realidade se trata de sentido figurado do aprisionamento na fama de agourenta. Não tenho conhecimento da criação doméstica da ave, nem foi esse o sentido das minhas palavras.

domingo, 31 de maio de 2009

Acauã


O belo e injustiçado falcão acauã (foto extraída da internet)

A Serra da Acauã está localizada em Acari (RN), próxima à divisa com Currais Novos (RN).
A foto foi batida de cima da Serra do Chapéu, por David Clemente.

Temos um tributo de gratidão a essa ave que empresta seu nome não só a serra acima, mas também ao rio mais importante de Acari: o Rio Acauã, que é represado pelo Açude Gargalheira.
Ela pode ser encontrada em boa parte do continente americano, que vai da Argentina, ao Sul do México, passando pelo Brasil. Fixa território nos aceiros de matas virgens e florestas, onde se alimenta basicamente de serpentes. Porém seu cardápio inclui ratos e morcegos, atuando como importante agente do equilíbrio ecológico. Infelizmente, na nossa região, recebeu o rótulo de agourenta, pecha que se alterna, em outras regiões, com a fama de mensageira da sorte, através do seu canto único e inconfundível. Sugiro o link www.avespantanal.com.br/paginas/index.htm e o www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/acaua/acaua-2.php para os que desejarem conhecer um pouco mais sobre esse belíssimo falcão.

Acauã

Dizem que seu canto é triste
Que é uma ave agourenta
Que a chuva, afugenta
Que a morte, atraíste
Dizem que descoloriste
O verde da natureza
Retirando a beleza
Tudo, em cinza, transformou
Se a acauã cantou
O eco foi a tristeza

Melodia da desgraça
Provoca ranger de dentes
Traz pavor a muitos entes
Assusta por onde passa
É uma grande ameaça
Quem escuta se acanha
A angústia se assanha
Provoca grande temor
Um som ameaçador
O azar lhe acompanha

Covardemente acusada
Sem direito a defesa
Sentenciada e presa
Sem nunca ter feito nada
Mas por que ser condenada
A uma pena que é eterna?
Mesmo assim não consterna
O homem que difamou
Maldosamente privou
Da convivência fraterna

Só os ratos e serpentes
Esses, sim, devem temê-la
Desaparecem ao vê-la
Escapolem, de repente
Continuando presentes
Ela se lança no ar
Mergulha para agarrar
Com força descomunal
Pra num aperto fatal
A sentença executar

Quem conhece ou descobre
Essa ave de rapina
Sabe que a sua sina
Não é a pecha que a cobre
Acauã é ave nobre
Merece admiração
Incansável guardião
Imponente e sagaz
De agouro, nada traz
Quanto é belo esse falcão!

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ensaio Sobre a Loucura


Esse ministro deve ser louco


Já esse deve ser são

Onde mora a loucura? Parece ser uma indagação que merece uma resposta simples e óbvia, mas andei procurando respondê-la e não consegui sequer uma aproximação. No ceticismo consciente ou na indignação juvenil? Na aceitação da legalidade amoral ou na recusa à licitude injusta? Na tolerância conivente com o repugnável ou na repulsa veemente diante das posturas não éticas? Na indiferença pragmática ou na entrega a uma causa "impossível"? No padrão promíscuo ou simplesmente na fuga do padrão?

A definição convencional da loucura me parece mais um rótulo, uma pecha colocada naquele que ousa fazer algo que falta coragem aos "são", um fardo a mais para ser carregado por quem já se encontra com um peso demasiado nas costas, próprio das causas nobres. É mais fácil taxá-lo de louco, que fazer o que foi ousado por ele. Ocupar aquela trincheira fétida? De jeito nenhum. Andar descalço, num caminho sinuoso de espinhos? Nem pensar. Então, já que falta coragem aos "são", até mesmo para um apoio moral, é mais fácil ironizar e ridicularizar, encobrindo, assim, as suas frustrações e os seus temores. Vale tudo para esconder que a sua própria luz é opaca. Até mesmo, apagar o brilho das estrelas e das constelações.

Os "sãos" são "sabidos", "vivos", "espertos", podendo ter ou não escrúpulos. Os "loucos" são "bestas", "sonhadores", "otários", que são capazes de passar por cima de tudo, menos dos seus princípios e dos seus ideais. Os "sãos" podem até sonhar com um mundo melhor, mas jamais serão capazes de mover uma única palha para isso. Só os "loucos" buscam a realização dos sonhos ditos impossíveis, mesmo que para isso custe a humilhação e a indiferença, obstáculos mais difíceis, dentre os muitos que terá de transpor.

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 19 de maio de 2009

O Papudinho







Papudinho é um sujeito
Que vive para a cachaça
Sua sede nunca passa
Esse é o seu defeito
Bebe por ser liquefeito
Sólido, comê-lo-ia
Sua sede irradia
Só não entorna dormindo
Se não estava ingerindo
É porque de febre ardia

Não existe simpatia
Nem conheço reza forte
Não há nada que conforte
Só uma cerveja fria
Se tem outra companhia
Estando em consciência
Nada tem eficiência
Pra curar a sede eterna
Só enchendo uma cisterna
E afogando a dependência

Se tá na abstinência
Quando a ressaca tá feia
Com pouco álcool na veia
Começa a turbulência
Situação de carência
Tremendo mais que toyota
Pede logo uma meiota
E toma quase dum gole
Bebendo de ficar mole
No meio fio, capota

Sua quartinha não lota
Parece esgoto geral
Chupa um imbu com sal
E logo uma ideia brota
Se encharcado, arrota
Ficando pronto pra guerra
No boteco se emperra
Com o copo não enrola
Saindo de padiola
Na hora que a farra encerra

Não tem muro, não tem serra
Pra impedir o rapaz
Na sua sede voraz
O caminho nunca erra
Parece que a cana berra
E logo o pingunça escuta
Com certeza absoluta
Advinha farra a légua
Esse filho de uma égua
Tem premonição astuta

Capaz de tomar cicuta
E nem sequer ficar tonto
Bebe até ficar pronto
Tudo que seu vício incuta
Essa é sua conduta
Um gole não satisfaz
Só a cana lhe dá paz
Emborca de copo cheio
O alcool é um devaneio
Que em sua mente jaz

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)



domingo, 17 de maio de 2009

Centro do Universo


Gargalheira, com a ilha ao meio encobrindo a represa e proporcionando uma visão separada da água que banha a vila(direita) e da água que banha a parede (esquerda)

Visão da porção localizada ao final da represa, em direção a Bulhões


Chuva registrada de cima da serra de Lagoa Seca

Feriado de primeiro de maio, dia que sucedeu às comemorações do cinquentenário de Gargalheira. Depois de um prazeroso banho de chuva em Acari, bate a vontade de dar uma olhada na chuva, de cima da Serra de Lagoa Seca, popularmente conhecida como Serra da Telern. Fazia muito tempo que não subia aquela serra, então ligo para o amigo Jesus de Miúdo, que de pronto topa o convite e juntos seguimos para o mirante, em forma de lajeiro, que existe no seu cume. Acesso fácil, subida rápida de carro e em poucos minutos estamos nós, entre nuvens, a admirar a beleza do cinquentão.

Centro do Universo

O centro do universo
Fica naquele local
Onde os sonhos orbitam
No seu eixo principal
Quimera abençoada
Quase um conto de fadas
Dentro do mundo real

Nesse canto magistral
Nosso umbigo foi cortado
E na porteira da vida
O cordão foi enterrado
O lugar que me refiro
Bem no primeiro suspiro
O viver foi inalado

Pelos ares encantados
O choro se espalhou
Esse pranto desejado
É sopro do criador
Que concebe uma vida
Em uma terra querida
Recanto de sonhador

No solo onde pisamos
No primeiro levantar
É o chão que desejamos
Poder nele descansar
Na hora que o Pai eterno
No seu abraço fraterno
Decidir nos elevar

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: Com relação à postagem anterior (Bico da Arara), gostaria de complementar o texto, respondendo ao questionamento do amigo Milton Simão, que por email me indagou a respeito da altitude da serra. A sua altura em relação ao solo, não tenho a informação, mas em relação ao nível do mar ela se encontra a 654 metros. Só para comparação, Martins fica a 760 metros do mesmo nível, Serra do Maracajá (Cerro-Corá) 691 metros e o Pico do Cabugi, em Lajes, 590 metros.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Bico da Arara


Bico da Arara visto da janela da casa, ponto de partida e de chegada


Chegada: eu e o mestre Carlilhos


Andorinhas saindo da gruta


Andorinhas próximas à gruta

.
Céu de andorinhas (pontinhos pretos desfocados)


Rio do Ingá e a casa de onde partimos e onde chegaremos


O mundo aos meu pés


Visão de dentro do Bico


Dentro do Bico. Somos um nada diante da grandeza e beleza do universo


Acesso ao Bico


Serra da Rajada, despontado em frente ao Bico


Lageiro ao lado do Bico. Meu Deus...


Vista lateral


Lajeiro ao lado do Bico


Vista de trás, um pouco à esquerda do Bico


Matando a sede com um cipó de mucunã


Pé de cambucá entre as pedras: nenhum fruto


Riacho subterrâneo


Rapadura é doce, mas né mole não


Saimos da gruta em direção ao cambucá. O rio serpenteia já distante


Portinhola de coleta do esterco, na gruta das andorinhas


O Bico se aproxima. Nos desviamos à direita, com destino à gruta


Início da subida. O Rio do Ingá vai se distanciando


Saída do Sítio Ingá, rumo ao Bico da Arara

Sábado à tarde (02/05), retornávamos eu, Zé Gentil (meu irmão) e Carlinhos de Damião da Caern, de uma vacina de gado no Sítio Cajueiro, seguindo pela estrada do Bico da Arara rumo a Acari. Ao passarmos em frente à serra que dá nome a estrada, Carlinhos sugere: - A gente podia combinar uma subida ao Bico, qualquer dia desses. Zé Gentil concorda: - Era bom não demorar, para não deixar a coisa esfriar. Então, já que deixaram a bola quicando, eu sentencio: - Vamos amanhã.

Dito e feito. Conforme combinado, quatro da matina, estou eu no café do mercado. Ligo para Zé Gentil, que já estava com uma desculpa na ponta da língua, para não ter que sair da cama, depois de um dia enfadonho. Primeira baixa. Então penso: - Será que o outro também vai desistir? Quando me preparava pra ligar, ao sair do mercado, dou de cara com o sujeito: - Viagem de pé? Pergunto eu. - E eu lá sou homem de quebrar trato. Responde o Mestre Carlinhos, de bate pronto. Entramos no carro e seguimos viagem.

Cinco e meia da manhã, estávamos nós no Sítio Ingá, em frente à casa de João Maria, morador do lugar, que se comprometeu conosco, na tarde anterior, em nos encaminhar até a vereda que conduziria a gente ao topo da serra.

O roteiro seria: 1) gruta que serve de retiro para as andorinhas, na sua rota migratória pelo Atlântico; 2) colher um fruto originário da Mata Atlântica que, na nossa região, só se tem conhecimento da sua existência na Serra do Abreu e na Serra do Bico da Arara, chamado Cambucá; 3) a última parada é o topo do Everest, Bico da Arara.

Após atravessarmos o Rio do Ingá, João Maria nos larga na vereda e seguimos serra acima, sem nenhuma pressa e com o único compromisso de admirar o que é belo. A todo instante parávamos para registrar os diversos cartões postais que iam se descerrando em todas as direções. Pegamos um desvio da vereda à direita, seguindo para a gruta que se localizava no meio da serra.

Primeira parada: chegamos em um horário que ouvíamos o diálogo das andorinhas, mas elas estavam enfurnadas e não era possível vê-las. Então demoramos pouco. Apenas batendo algumas fotos para depois seguimos para o lado esquerdo da serra, rumo ao cambucá.

Antes da segunda parada, descemos num sovaco de serra à esquerda, passando por sobre um riacho subterrâneo, onde escutávamos o chiado da água que descia serra abaixo, escondida por baixo das pedras que serviam de escudo. O líquido raro, que alimenta a vida do meu árido Seridó, murmurava: alimentava a nossa alma.

Segunda parada: decepção. Os pés de cambucás não estavam carregados. Nenhum fruto, nem sequer sementes encontramos. - Tem nada não. Será motivo para um retorno em breve, se Deus nos permitir.

Partimos para o Bico. No meio do caminho a sede aperta e é o jeito nos virarmos com a água preciosa de cipós de mucunã, antes de seguirmos rumo ao destino final. A pedra quase mítica se aproxima. Confesso que a cada passo que nos leva a ela, vou sendo tomando por uma inesperada ansiedade.

Ao chegarmos ao lajeiro vizinho, que é um pouco mais alto que o Bico, é só deslumbre: indescritível beleza. Bonito demais! A serra nos recebe com uma brisa mansa e fria, tocando nossas faces, com a sutileza de um carinho materno: um afago nos nossos corpos exaustos. Só o frescor do clima serrano já teria valido a pena todo o esforço desprendido na subida.

Aportamos no destino final: objetivo alcançado. Não há o que dizer. A única coisa a fazer é nos entregamos à contemplação da grandeza do infinito: O Grande Arquiteto do universo é O Cara.

Na volta, o cansaço começa a bater forte, mas ao vermos a revoada de andorinhas, resolvemos voltar ao local da nossa primeira parada, na subida. Infelizmente o fotógrafo não tem capacidade de um registro mais qualificado da saída da gruta. Mas é uma cena belíssima! As andorinhas parecem flechas disparadas da gruta, rumo ao céu. Projéteis alados são arremessados em uma velocidade impressionante, que só um equipamento fotográfico profissional seria capaz de paralizar aquele momento, em uma fotografia que retratasse a beleza da rajada de pássaros.

Após retornarmos ao nosso ponto de partida, um cafezinho flertando o Bico pela janela, com a sensação de objetivo atingido e apalavrando o retorno aos cambucás, para cumprirmos o único ponto da nossa missão que ficou adiada para breve.