terça-feira, 27 de outubro de 2009

Braço Desarmado


O que fazer com um ser livre que tem um vício que provoca imenso desconforto ou até mesmo risco, aos que o cercam? O que fazer se ele não aceita tratamento, nem o estado dispõe do aparato prescrito admitido para o caso? O que fazer se o legislador vive em um "faz de conta", habitando um mundo diverso do real, em um pais que não é o Brasil, e que cria uma legislação muito bonita, mas absolutamente inexequível e inaplicável? Sigo esta linha de raciocínio, caminhando através de indagações, para retornar a primeira pergunta, reformulando-a de uma forma mais objetiva: O que fazer com um drogado perigoso, que não aceita tratamento?

Penso que o “braço desarmado” é sempre a primeira opção para a solução de qualquer problema ou conflito. Mas a sua ação é limitada. Muitas vezes se faz necessário o uso do “braço inclemente”, a força sem complacência que reduz o irredutível.

O desabafo do pai e poeta que dizia ontem (26/10), no Jornal Nacional, que tinha sido preciso que o seu filho cometesse um crime bárbaro, uma tragédia anunciada, para que o estado desse o tratamento que ele precisa - a privação da convivência social – foi muito forte. Seria muito bom que a morte da menina não fosse em vão. Seria muito interessante que deixassem de hipocrisia: o Brasil ainda não dispõe da estrutura necessária a implementação eficiente da atual legislação. A discriminalização do uso de drogas está deixando a população entorpecida e a polícia impotente, sem capacidade de reação. Fazer o quê? Esperar o drogado cometer um crime trágico para esboçar reação?
link da reportagem no site globo.com

Braço Desarmado

Faço parte do braço desarmado

Que refuta a injusta ação legal
Tem no bem, no bom senso e na moral
Substância assaz pétrea, bem sagrado

Faço parte do braço obstinado
Legião da inquietude abissal
Que evita o decurso temporal
Adotando um compasso apressado

E apesar de agir sem violência
É fiel a resposta veemente
Mas se mesmo assim lhe faltar fluência

Então venha o braço inclemente
Com a arma letal, sem complacência
E o mal necessário, eficiente


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)


PS: Em junho deste ano já tínhamos abordado o tema através da postagem "drogas".

sábado, 24 de outubro de 2009

Espelho


Esta semana tive contato com um cliente e amigo que me relatava um infortúnio que passou. Como jovem e próspero comerciante, tinha – e ainda tem – um futuro promissor. Mas o ano passou, quando estava no seu estabelecimento comercial, foi vítima de um assalto e acabou sendo baleado com dois tiros. Uma bala causou poucos danos, mas a outra provocou sérias lesões no seu fígado, destruindo 80% do órgão. Recuperado da fase mais traumática e após passar por uma experiência de quase morte, ele me dizia:
“- Pedro: em determinados momentos da vida a gente dá uma grande importância a coisas fúteis; ficamos transtornados com bobagens; somos vaidosos e nos sentimos poderosos; mas é tudo ilusão. Nós não somos nada. A qualquer hora podemos perder tudo. Quando eu estava quase desenganado e me deparava com minha própria insignificância e impotência, a única coisa que eu me lamentava era de não poder ver meu filho crescer. As coisas mais relevantes das nossas vidas, muitas vezes não valorizamos ou não damos a importância devida. As vezes Deus permite que certas coisas aconteçam conosco, para que possamos crescer. Apesar de tudo que aconteceu, não guardo nenhuma revolta de nada e, ao contrário, sou muito grato por tudo. Além de continuar vivo, aprendi a valorizar as coisas importantes e desprezar as irrelevantes“


Espelho


No espelho contemplamos
A nossa própria imagem
Adorando a miragem
Da nuance que sonhamos
O vulto que enxergamos
Desprovido de defeitos
Configura um sujeito
Pleno, único, infalível
Fortaleza imbatível
Ser acabado e perfeito


O rio corre em seu leito
O sol distribui a luz
O aroma, a flor produz
A conduta atrai respeito
O amor jorra do peito
A paixão concebe o cego
No poema que navego
A rima norteia o verso
No centro do universo
Faz morada nosso ego


É sedução que renego
Achar-se grande em valor
Julgar-se superior
Não é ilusão que rego
No argumento que me entrego
Não somos absolutos
Temos saber diminuto
Sequer podemos dar crivo
Se ainda estaremos vivos
Em um súbito minuto


O mais sábio e astuto
Não dá vida a uma formiga
Dos bens que a ganância abriga
Temos só o usufruto
Ninguém possui um indulto
Garantindo a melhor sorte
Um futuro que conforte
É uma esperança acesa
Mas só temos a certeza
Da inevitável morte


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Injusta Faceta



Não concordo muito com a cobrança excessiva que os veículos de comunicação fazem de uma polícia educada e cheia de boas maneiras para a abordagem de delinquentes. Outro dia passou uma reportagem - várias vezes e em todos os telejornais - de um flagra que alguns estudantes gravaram de uma ação da polícia.  Após passarem a noite incomodando o condomínio onde moravam e depois de várias ocorrências registradas contra eles, a paciência da polícia acabou e os agentes abordaram os provocadores com uma postura um pouco "intolerante".  Pronto. Isso foi o suficiente para gerar um verdadeiro linchamento público dos policiais.  Em momento algum os repórteres perguntaram aos vizinhos dos baderneiros, o que eles acharam da ação da polícia.  As imagens foram suficiente para todas as conclusões e, como era de se esperar, os "anjinhos" se tornaram as vítimas e a polícia, a grande vilã.


Ainda não começou, mas creio que brevemente deve se dar início a um outro linchamento, no caso, da polícia do Rio. Provavelmente deve haver alguma reação mais enérgica à guerra das gangues de traficantes do Rio - que culminou na queda do helicóptero da PM, matando três dos seus ocupantes - e o juizado sumário da imprensa já deve estar montado para condenar essas futuras ações. 


Como um rasgo de espora
Quando roda a roseta
Numa injusta faceta
Minha impaciência aflora
A realidade arvora
No pacato cidadão
Grande indignação
Vendo uma errante milícia
Encurralando a polícia
Sem nenhuma apreensão


Temendo a repercussão
Que haverá na imprensa
E a crítica intensa
Contra a corporação
Não se esboça reação
Que possa dar um sinal
Firme e proporcional
Sem dó e nem piedade
Contra a marginalidade
E o poder colateral


Se um nobre policial
Cumprindo a sua missão
Encosta um dedo da mão
No couro de um marginal
Causando-lhe qualquer mal
Ou o mais sutil dos danos
Logo, os Direitos Humanos
Na sua investidura
Denuncia a criatura
Tutelando o tirano


Queria que o franciscano
Que tem por ocupação
Dar proteção a ladrão
Acoitando o fulano
Como bom samaritano
Fizesse a mesma vigília
Visitando a família
Do pobre policial
Que foi vítima fatal
De uma nefasta quadrilha


Toda a força que pilha
O poder da autoridade
Alimenta a impunidade
Fortalecendo a guerrilha
Provocando o caos, fervilha
Põe fim a ordem, arrasa
A sociedade, atrasa
O pavor a faz refém
E muitos entes de bem
Se encarceram em casa


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

domingo, 18 de outubro de 2009

Soneto da Quase Despedida



Na fronte pálida, a relutância
Brilho profundo em olhos rasos d'água
Lágrima mansa, coração deságua
Em gestos da mais nobre elegância

Na boca cálida, serena ânsia
Decepção, que o tempo não enxágua
Singela angústia, ofegante mágoa
Não há mais aquela rara fragrância

Palavras mudas, afagando a alma
Doce veneno de uma ilusão
Constrito epílogo, veladas palmas

Não houve amor, foi apenas paixão?
Subitamente esvai-se toda a calma
E um beijo ardente é mais que um perdão

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: Este soneto já foi postado no dia 06/10, no blog do poeta Lívio Oliveira, a quem agradeço a generosidade e parabenizo pelo belo trabalho que vem desempenhando naquele espaço em prol da cultura potiguar.
http://oteoremadafeira.blogspot.com/2009/10/soneto-da-quase-despedida-poema-enviado.html

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Impossível

Antes que o céu desabe
Por sobre a sua cabeça
Antes que você padeça
Sem fazer o que lhe cabe
Antes que o temor acabe
Com um anseio fecundo
Tendo um trauma profundo
Por receio do impossível
Saiba que ele é o combustível
Que movimenta o mundo

Mergulhando em seus sonhos
Aprendeu a navegar
Desceu ao fundo do mar
Mesmo com pavor medonho
Enfrentando os seus demônios
Voou na imaginação
Inventando o avião
E numa vaidade sua
Decidiu chegar a lua
Só por pura obsessão

Não existirão fronteiras
Que jamais serão transpostas
Nunca faltarão respostas
Para indagações obreiras
As verdades passageiras
Ou permanentes tabus
Covardemente seduz
Levando a estagnação
E um véu de escuridão
Se põe em frente da luz

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Soneto do Trovão – Poder Prescrito


Ecoando de um raio sagaz
E irrompendo das nuvens, imponente
Amedronta a carne inocente
Sem sequer fissurar frágeis cristais

O rugido estridente é fugaz

Forte brado, lamento impotente
Um poder que já não se faz presente
O passado não guarnece bornais

O sucesso que o abandonou, só
Dissipou toda a glória no vento
Sua nobreza só vai lhe trazer dó

Aumentando a carga de tormento
Num reinado que há muito virou pó
Jaz um corpo que aguarda o seu momento

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Paredão


Parede do Açude Umari, em Upanema (RN) 

Paredão para mim é esse aí.  O resto é brinquedo que faz zoada e incomoda, de adolescente besta, que gosta de aparecer.


Hoje em qualquer cidade
Não há local de sossego
Na periferia ou centro
Não existe aconchego
A partir da invenção
Desse tal de paredão
Só quem dorme é morcego


É uma grande besteira
Procurar a autoridade
Hoje é um só delegado
Pra seis ou sete cidades
Com o carro indisponível
Por falta de combustível
Fica sem mobilidade


Certo dia, uma turma
Curtindo a sua noitada
Com um som amplificado
Em uma hora avançada
Certamente se lixando
Por se encontrar profanando
Uma norma que é sagrada


Um marchante diplomado
Pela escola da vida
Sendo aluno laureado
Sem matéria repetida
Vai pedir para baixar
Aquele som "de lascar"
Que incomoda a avenida


Precisando descansar
De uma labuta pesada
Querendo se recolher
Na sua hora marcada
Se depara com a conduta
Daqueles “felasdasputa”
Que deixa a rua acordada


Tinha uma moça magrela
Das pernas "fina" e zambeta
Parecia que sambava
Pilotando uma lambreta
Seu corpo foi inspirado
Num desenho inacabado
De um chassi de borboleta


Um macho da bunda grande
Dançava a quebradeira
Rebolando até o chão
Balançando as cadeiras
Vez por outra toca um funck
O nego dá um arranque
Feito um fusca na ladeira


O trabalhador cansado
Doido pra curtir seu sono
Se dirige ao quartudo
Que do paredão é dono
Antes, mesmo, de falar
Ouve: - Nem venha chorar
Meu sonzão eu não raciono


Paciência tem limite
E momento de acabar
De tanto pedir a eles
A fineza de baixar
Pensa: - Só podem ser loucos
Ou então devem ser moucos
Pra conseguir suportar


Depois de se rebaixar
Mesmo com toda razão
Se vê desmoralizado
O humilde cidadão
Decide fazer besteira
Puxando a faca peixeira
E empunhando o facão


Diz: - Mulher traga a bacia
Grande, de "aparar fato"
E a vara de virar tripas
Deixe que eu mesmo trato
O da bunda empinada
Vai virar uma buchada
É o primeiro que eu mato


O sujeito quando viu
O brilho da "lambedeira"
Suspendeu o rebolado
Disparou numa carreira
Quase que “arreia o barro”
Antes de saltar no carro
E engatar a primeira


Nem se lembrou que o reboque
Tava em mau posição
Com energia ligada
Através da extensão
Quando o carro disparou
O fio se esticou
Partindo a fiação


Foi fogo pra todo lado
Antes do som se calar
Na posição que estava
Não foi possível aprumar
O reboque capotou
O sonzão se espatifou
E a paz voltou a reinar


O restante da história
Nem precisa dar guarida
A “mundiça” se encantou
Ohh povo bom de corrida
Só a zambeta magrela
Que ninguém, depois, viu ela
Permanecendo sumida


Encontraram a menina
No terceiro amanhecer
Pense numa cena linda
Que só vendo, para crer
Aquele resto de feira
Trepada numa craibeira
Sem conseguir mais descer


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)


A história toda é uma ficção, porém alguns termos são influenciados pela "lenda rural" narrada por Everaldo Cabeção e registrada por Jesus de Miúdo, em seu blog: http://acaridomeuamor.nafoto.net/photo20090724213939.html


Dedico ao acariense Everaldo esta postagem e me solidarizo com ele, pela perda do seu pai, Joaquim de Cristóvão, ocorrida esta semana.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Poesia



Confesso que, como aprendiz de poeta de cordel, só me sinto a vontade escrevendo com métrica e rima. Algumas vezes já ensaiei algo não metrificado, mas acaba não saindo nada. Ontem (06/10) tentei definir a poesia, buscando uma abstração maior, sem métrica e com uma rima menos rigorosa. Quando terminei, achei que tinha conseguido. Ledo engano. Relendo, vi que não tinha abstração nenhuma, pois em vez de poesia, eu tinha descrito uma mulher. E o poema acabou seguindo uma estrutura métrica sem obedecer nenhum padrão, mas com uma sequência lógica de rimas, sendo que os dois primeiros versos de cada estrofes tinha 4 sílabas poéticas e o último com 10 sílabas até a última tônica. Sei que pai nenhum vai achar seu filho feio, mas confesso que gostei: simples e charmosa.


És a poesia
Em versos curtos
Cabelos longos de pele macia


Há harmonia...
Cada palavra...
Em cada parte do corpo há encanto


Causa espanto
Palavras frias
Pura sinceridade indolente


Em versos quentes
Respousa a alma
Até na calma, jaz inconsequente


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sabedoria do Sertanejo


Buscando conhecimento
Perguntei ao sertanejo
Observador constante
Não vive só de lampejos
- Onde está a fortaleza
Das forças da natureza?
Ele disse: - No Desejo


- Para conter uma moça
Nem a muralha da china
- Nada inibe o alpinista
Nem a mais alta colina
- A própria água do rio
Vence qualquer desafio
Até o mar, sua sina


Vendo que ele filosofa
Quis ouvir seu coração
Perguntando ao sujeito
A sua percepção
Procurei ser mais profundo:
- Que você acha do mundo
E da civilização ?


- O mundo é um presente
Perfeito que Deus nos deu
- O homem o mais perverso
Vivente que já nasceu
- Essa tal humanidade
Com Seu Filho foi covarde
Mas por ela, Ele morreu


Confesso, dei um suspiro
Diante da sapiência
Resolvi explorar mais
A profunda inteligência
Indagando ao cidadão
Sua maior ambição
Que fascina a existência?


- Depende da referência
E individualidade
- O sonho para alguns
Não é unanimidade
- Uma chuva no sertão
E um prato de feijão
Bastam a minha vaidade


E eu achando que um carro
Ou um bonito aposento
Pra quem mora num casebre
E viaja num jumento
Era o sonho de consumo
Mas sua ambição, presumo
Só Deus dá o provimento


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Mulher


Foto: Aldo Medeiros

A árvore florida é um Pau D'arco ou Ipê Roxo. Para mim, a mais bela e exuberante florada da nossa rica vegetação. Um verdadeiro espetáculo da natureza: algo que se assemelha a beleza feminina.


E os céus se fez mulher
E a mulher, o paraíso
O brilho intenso da vida
Divino encanto, preciso
A beleza feminina
Minha existência domina
Sem ela, eu agonizo


Sua ausência, exorcizo
Em uma tênue lembrança
Viajando no teu ser
A minha angústia descansa
Sem a sua companhia
A mais cruel agonia
No meu coração se lança


A cumplicidade mansa
É presença preciosa
O mais encantado ser
É a alma graciosa
Que segura a minha mão
De dentro do coração
Faz carícia generosa


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Manhã...


Foto: David Clemente

A manhã, fria, reluz...
Primeiros raios do sol
Libertando do anzol
Do coma que a noite induz
Um dia novo conduz
A procurar pela glória
Uma nova trajetória
Pra poder sair da lama
Comece fora da cama
A reescrever a história

A manhã, fria, reluz...
Instiga o ser inventivo
A um dia produtivo
Que limpe da alma, o pus
Retirando o capuz
Que cobre o olhar descrente
Melhor um calo na mente
Que um juízo mofado
Cada dia é um legado
Sem valor equivalente

A manhã, fria, reluz...
Que tal um beijo no filho?
Ou enxergar todo o brilho
Que a sua mãe produz?
Que tal pegar sua cruz
Que puseste noutras costas?
Dando a firme resposta
Que o destino aguarda
Para pôr em sua farda
A medalha que lhe arrosta

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

domingo, 4 de outubro de 2009

Soneto da Mulher Poderosa



A mulher poderosa catequiza
Simulando uma frágil condição
Quando, enfim, dominar o coração
O errante liberto, escraviza

Com magia sutil, hipnotiza
Guarnecendo de asas, a ilusão
Interpreta falsa submissão
E o indomável ser, imobiliza

Faz do homem, sua propriedade
Pilha o corpo, a alma, o lazer
Mas que graça teria a humanidade?

Sem mulher, esse tão sublime ser?
Uma vida com total liberdade
E nenhuma razão para viver

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sábado, 3 de outubro de 2009

Vida Alheia


Por falta de criatividade, não consegui selecionar nenhuma foto para ilustrar a "Vida Alheia", então resolvi colocar o jumento Felipão.

Você deve está pensando: - O que é que um jumento tem a ver com a vida alheia??? Rigorosamente nada, a não ser por se tratar de um personagem da vida interiorana. Mas, o que é que as pessoas tem a ver com a vida dos outros??? Também, nada. Beleza!!! Então Felipão e a "Vida Alheia" já tem algo em comum. Segundo ponto comum: É aconselhável não se meter com nenhum dos dois. Mas... ...se é de você se meter com Felipão, prefira a vida alheia.

No pacato interior
A vida mansa norteia
Dia-a-dia sem estresse
O sossego encandeia
Mas o lazer principal
Presente em qualquer local
É falar da vida alheia

Não importa quem falseia
Nem se saga é verdadeira
Precisa ser criativa
E sendo a versão primeira
Chamará a atenção
Provocando sensação
O mote sobe ladeira

Se a mulher é chifreira
Quem paga é o marido
Enfeitado, rotulado
Cabisbaixo e sofrido
O chifre ainda tá morno
De qualquer forma é corno
Brabo, manso ou ferido

Maxixe é seu apelido
Por ser, a moça, festeira
Incomodaria menos
Sua orelha na fogueira
Dizem que nasceu vadia
E o seu fogo já ardia
Queimando as mãos da parteira

Uma língua fuxiqueira
Faz um estrago danado
Quando faz o julgamento
De um garoto delicado
Não tendo nenhuma dó:
- Criado pela avó
- Só podia ser viado

Contando a quem tá do lado
Solta logo uma bravata
Diz: - Aquela moça velha
- Figurinha caricata
- É chata por ser solteira ?
- Ou, por só falar besteira
- É solteira por ser chata?

Até o amigo destrata
Quem gosta da falação
Se o sujeito compra um carro
Começa a especulação
Diz que está enricando
Que leva a vida roubando
Seu lugar é na prisão

Quando há repreensão
Ao pensamento fecundo
Não aceita o conselho
Se defende em um segundo
Dentro da cabeça dele
Todo o mundo é contra ele
E ele é só, contra o mundo

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Soneto da Impaciência


Paciência é o caminho mais prudente
Decisão racional, resignação
Mas meu sangue não quer ponderação
Tem uma forma de agir inconsequente

A cautela é um traço ausente
Passional, o impulso rege a ação
A espera é inclemente prisão
Uma omissa postura conivente

Quando calo, não é consentimento
É porque não me cabe decidir
A postura velada é um tormento

Impotência cruel de reagir
Eu prefiro o mais rude enfrentamento
Que a atraente opção de fugir

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Galo de Campina


Só olhando com bastante atenção para o centro da foto, um pouco para baixo, será possível enxergar um galo de campina pousado na jurema. A foto foi feita em uma madrugada fria de julho e se deu depois de muita procura. Encontrava-me no sítio, em Acari, selando os cavalos, acompanhado pela trilha sonora matinal da passarada. Mas havia um solista em destaque naquela orquestra alada. Então perdi (ganhei) uns 15 a 20 minutos procurando o pássaro escondido na penumbra do amanhecer, até conseguir registrá-lo neste flagrante.

Galo de Campina canta
Canta a beleza em cores
Cores realçando a vida
Vida ungida de louvores
Louvores que lava a alma
Alma cheia de amores

Galo de Campina canta
Adornando o alvorecer
Encurta o dia longo
Ornamenta o entardecer
Um instrumentista solo
Um abençoado ser

Galo de Campina canta
Dotes que não são só seus
Nunca esteve em aulas
Nunca frequentou liceus
Mas no seu canto se exprime
O timbre da voz de Deus

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Pai


Passos largos, passos firmes
Braços justos, braços fortes
Mão aberta, mão que age
Peito aberto, peito norte
Alma boa, alma nobre
Paz na vida, paz na morte

Seu legado, sua sorte
Referência concebida
A existência finita
Numa infinita vida
O céu na terra de fel
O mel de cada ferida

Uma herança recebida
Prudente orientação
O caminho a seguir
Sem seguir na contramão
Um ascendente respeito
Admirável lição

Parece que some o chão
Se do nosso lado sai
Escada sem corrimão
O corpo trôpego cai
Terá imenso vazio
Quando lhe faltar o pai

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Vegetação do Seridó


A árvore fotografada é uma faveleira, com uma jitirana (cipó/trepadeira) florada, ornamentando a árvore desfolhada.

Outro dia, após a postagem do poema Tempo III, recebi um email de um frequentador deste espaço, fazendo-me a gentileza de uma correção - que, de qualquer forma, sou-lhe grato. O amigo corrigia o verso "Tal qual um forte inverno/Que o verão logo alcança", afirmando que a estação que sucede o inverno é a primavera. Na ocasião, retornei o email agradecendo a contribuição dele e, ao mesmo tempo, explicando-lhe que não me referia às estações do ano, no sentido literal. Na realidade o verso do poema tem a conotação climática do nosso sertão, de uma forma empírica e não científica.

A nossa região, devido a proximidade com a Linha do Equador, tem um clima bem diverso das regiões mais próximas dos polos do globo terrestre, de clima temperado, e os equinócios e solstícios, que marcam as mudanças de estação, são pouco percebidos. O homem do campo não trata o verão como uma estação do ano. O verão é visto como o período da estiagem e se estende pela maior parte do ano. Já o inverno, corresponde ao período das chuvas. São essas as conotações que o poema reflete.

Em um ano normal, as chuvas - nosso inverno - ocorrem entre os meses de fevereiro e maio, tendo uma maior frequência e intensidade nos meses de março e abril, com grande variabilidade e incerteza de ocorrência. Ou seja, o nosso inverno às vezes se inicia no verão e tem a sua maior intensidade no outono. E o nosso verão vai do inverno ao verão, passando pela primavera. Quando fazia esses esclarecimentos ao amigo, veio a ideia de tentar relacionar a nossa vegetação aos seus períodos de floração, para evidenciar a pouca correlação com a estação das flores: a primavera.

Apesar de haver uma maior incidência da floração da vegetação da caatinga, nos períodos relacionados, a sua ocorrência se dá, principalmente, em função das chuvas. Portanto os períodos sugeridos podem sofrer alteração em função da irregularidade das chuvas.

Segue, abaixo, a relação das principais plantas arbóreas e cactos que ocorrem no Seridó e seus respectivos períodos de floração. A informação é baseada em simples constatação do homem do campo e apenas me dei ao trabalho de colher e consolidar, não havendo nenhum valor científico.


Planta FloraçãoEstação
Angicosdez/janverão
Aroeiraout/novprimavera
Braúnaout/novprimavera
Cardeiroprimeiras chuvasverão
Catingueiramar/abroutono
Craibeiraset/novprimavera
Cumarujun/julinverno
Facheiroprimeiras chuvasverão
Faveleiramar/abroutono
Imburanafev/marverão
Imbuzeironov/dezprimavera
Juazeiromar/abroutono
Jucánov/dezprimavera
Jurema*mar/abroutono
Maniçobaabr/maioutono
Marmeleiromai/junoutono
Mororómai/junoutono
Mufumbomai/junoutono
Mulunguago/setinverno
Pau-D'arcoago/setinverno
Pereirojan/fevverão
Quixabeiraout/novprimavera
Xique-xiqueprimeiras chuvasverão


(
*) A jurema também costuma florar fora de época, quando da incidência de chuvas isoladas.

PS: Agradeço a José Gentil e Gustavo Braz pelo auxílio na coleta e consolidação das informações relativas às floradas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Vaquejada




Sempre tive uma grande paixão por esse esporte genuinamente nordestino, que, em um passado remoto, correspondia à extensão do cotidiano do nosso vaqueiro. As demonstrações de valentia e de coragem eram coroadas, na maioria das vezes, exclusivamente pelo prazer de ter seus dotes reconhecidos.

Presentes nos paitos1, em situação de igualdade, estavam cavalo, boi e vaqueiro. Também, em situação de igualdade, estavam o vaqueiro autêntico e o vaqueiro da cidade. A interação, as brincadeiras, as demonstrações de habilidade, combinados com a imprevisibilidade decorrente de animais treinados para a lida, mas não para o esporte profissional; e de vaqueiros acostumados a realizar proezas no seu dia-a-dia, como parte do seu ofício, não como exclusivo meio de vida, davam um encanto especial ao esporte.

A boiada corrida2, irregular, composta por bois e novilhas de portes variados – predominantemente graúda - e características pouco homogêneas; os cavalos acostumados a correr no mato, não em uma pista com espaço delimitado; competiam com os mais afeitos àquelas condições, que montavam animais mais qualificados. Mas a graça do evento eram as cenas inusitadas e exclusivas proporcionadas a cada decida do boi: cavalo cabeando3 ou se acuando4 ao adentrar na arena; boi driblando vaqueiro de ponta a ponta do paito ou partindo na frente em disparada, aplicando-lhe o famoso e humilhante cambão5; vaqueiro derrubando boi distante do alvo (faixa); cavalo empinando6 no mourão7 ou tomando as rédeas8 e desembestando9 na corrida; eram os temperos da festa.

O vaqueiro estava sempre diante do imprevisível: a reação do seu cavalo; o tipo de boi que pegaria; e a sua pouca habilidade em conduzir o animal naquelas condições. Mas aí residia o encanto de tudo. Aí se encontrava o prazer de frequentar ou simplesmente assistir a uma vaquejada.

Apesar de atualmente dificilmente correr, continuo a gostar de vaquejada. Mas, cá pra nós: que a evolução do esporte o transformou numa covarde monotonia, com certeza transformou. Principalmente nas grandes vaquejadas, nos eventos de alto nível, olhar uma carreira na fase de classificação é o suficiente para ver todas. Cavalos impressionantemente avantajados, muito bem tratados e treinados; vaqueiros que não fazem outra coisa na vida a não ser treinar a semana toda, munidos de luvas que são verdadeiras navalhas; e, por último, uma boiada toda igual, não corrida, que se não cair, rendendo10 qualquer coisinha, na maioria das vezes terá a calda do seu rabo amputada, com precisão cirúrgica.

O pior de tudo é que aquele que emprestou seu nome ao esporte, aquele do qual o esporte se origina a partir da sua rotina diária, o vaqueiro original, não só perdeu o espaço, como também perdeu o nome que cedeu ao esporte. Se entrar na pista com um cavalinho pé-duro11, menos vistoso ou se for dos que gostam de já sair pegado na calda da rês ou se não souber desfilar com a pose que os “vaqueiros” modernos criaram como padrão, são rotulados pejorativamente de jacus12 ou de mandioqueiros12.

A ostentação e as mostras da forte saúde financeira dos que hoje praticam o esporte é algo impressionante, saindo, muitas vezes, do campo da extrema vaidade e entrando na esfera da humilhação aos que não foram tão bem favorecidos financeiramente pelo destino. Só exemplificando, já achava um excesso a escovação dos animais entre uma carreira e outra. Então, outro dia, vi, em uma grande vaquejada, um zelador de cavalos tendo que escovar os testículos de um animal no corredor do retorno, sem que o “vaqueiro” sequer parasse o animal para facilitar o “trabalho” do pobre infeliz, em frente a uma arquibancada lotada. Acho que para tudo há um limite, inclusive para a vaidade.

Excessos a parte, ainda bem que a essência e o charme da vaquejada do passado ainda tem espaço nos palcos menos vistos. Nos bolões13 e nas mini vaquejadas promovidas nos sítios, ainda é possível ver um cavalo que não seja Quarto-de-Milha14 com papel15, correndo. Também é possível ver, descendo na boiada irregular, o vaqueiro. Não precisa dizer que a cada apresentação, a deparação com o imprevisível e que em cada carreira, uma bem explícita e aparente diferença da outra.

(1) Paito - Palavra derivada de "pátio", mas com um sentido próprio e completo. Representa a arena onde se pratica a vaquejada O mesmo que "pista de vaquejada", local destinado a prática do esporte. As outras definições mais usuais "parque" e "pista" necessitam de ser compostas com o substantivo "vaquejada" para dar sentido exato a expressão.
(2) Boiada corrida - Gado que já tem experiência de pista e procurará se defender, dificultando o trabalho do vaqueiro.
(3) Cabear - Abanar o rabo. Agitar a cauda insistentemente, às vezes girando compassadamente como um ventilador.
(4) Acuar-se - “Armar o circo”. Desobedecer o ginete, fazendo de tudo para não correr.
(5) Cambão - Quando o boi dispara na frente e não permite que o vaqueiro sequer pegue na sua calda.
(6) Empinar - Erguer as patas dianteiras, apoiando-se apenas nas traseiras.
(7) Mourão - Tronco de madeira onde a porteira é firmada e representa o local onde o vaqueiro aguarda a saída do boi, no momento que antecede a carreira.
(8) Tomar as rédeas - Quando o cavalo resolve agir por conta própria, não atendendo aos comandos do vaqueiro.
(9) Desembestar - Sair em disparada desenfreada.
(10) Render - Demorar a cair, segurando-se em pé.
(11) Pé-duro - Animal adaptado a região, aclimatado, derivado das primeiras mestiçagem de raças trazidas para a região. Normalmente são animais rústicos, vigorosos, de porte mediano, cascos fortes e que, ao contrário dos Quartos-de-Milha são perfeitos para a lida diária do semi-árido.
(12) Mandioqueiro ou Jacu – Rótulo descriminatório aos que praticam o esporte, sem a mesma técnica dos profissionais. Até pela origem da palavras se percebe que não são modos de tratamento oriundos da nossa região (Seridó), pois o Jacu não é uma ave nossa e a mandioca só é cultivada em pequenas faixas de terra mais úmidas e férteis.
(13) Bolão – Pequena vaquejada sem premiação predefinida, onde os prêmios pagos aos vencedores são atribuídos a partir de um percentual das senhas vendidas.
(14) Quarto-de-Milha – Raça de cavalos originária dos EUA. Animal de grande porte e extremamente musculoso, especializado em corridas curtas (um quarto de uma milha), que tem se mostrado ideal para a prática da vaquejada profissional.
(15) Com papel – O mesmo que "com registro". Animal de raça, com pedigree.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Porteira Velha


Foto: Kaurê Martins

Porteira velha, emperrada
O seu fim é um suplício
Lá bem longe, no início
Quando tu foste sentada
Com capricho, acabada
Dava gosto de se ver
Até o som do “gemer”
Que do atrito advém
E toda porteira tem
Ouvi-lo dava prazer

A boiada esperava
Paciente, sua hora
Prosseguindo, sem demora
Quando o guia escancarava
E o vaqueiro que guiava
Chamava o gado, aboiando
O rebanho, atrás, urrando
Como que compreendendo
No mesmo tom respondendo:
- Dá licença, vou passando

Por ti passava o vaqueiro
No seu burro bem zelado
E o careto, calçado
Que montava o fazendeiro
O trabalhador, meeiro
Tangendo o seu jumento
Carregando seu sustento:
Milho, feijão, melancia
Mas chegando ao fim do dia
Por ti só passava o vento

Ou melhor, vou corrigir:
Pela sua imponência
Sem a sua anuência
Não passava por ali
Nada podia seguir
Em ti, tudo esbarrava
O vento lhe respeitava
Desviando noutro prumo
O preá mudava o rumo
E nunca lhe afrontava

Como que em um quartel
Que se bate continência
Saudando na reverência
A patente coronel
Até as aves do céu
Respeitavam, ao pousar
Escolhendo pra sentar
Na cerca que segue ao lado
Nem os touros do cercado
Ousaram em ti marrar

Mas da glória do passado
Só lhe resta o gemido
Soando bem mais sofrido
Quando sendo acompanhado
Do ruído do arrastado
Quando roça pelo chão
Que cruel humilhação
Ver a mais bela porteira
Perto de virar fogueira
Ou lenha para o fogão

Em vez de gado no pasto
E porcada no chiqueiro
Com galinhas no terreiro
E um cachorro bom de rasto
Um belo roçado, vasto
E muito peixe no rio
A natureza no cio
Com fartura que nos pasma
Só nos restou um fantasma
De tudo que existiu

Sou o mourão que a sustenta
E nunca cedeu um palmo
Confesso, não estou calmo
E nada mais me alenta
O futuro que se aventa
Machuca mais que lancete
Eu afirmo, sem falsete:
Desejo que o cupim
Possa abreviar meu fim
A ter que firmar colchete

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

À Lua


Lua linda, inspiração
Espelho da natureza
A refletir a beleza
E insuflar a paixão

Lua linda, inspiração
Mesmo sendo verdadeira
Não transportas a fogueira
Que arde no astro irmão

Lua linda, inspiração
Reina à noite, absoluta
Na aurora, se oculta:
Humilde resignação

Lua linda, inspiração
Minguante, subtraída
Pelo o ocaso atraída
Abraçando a solidão

Lua linda, inspiração
Nova, a esperança aquece
Em todo fim, resplandece
A luz da ressurreição

Lua linda, inspiração
Crescente, logo empreende
Quando sua força ascende:
Fase de maturação

Lula linda, inspiração
Cheia, espalha seu manto
Do apogeu do encanto
Ao cume da sedução

Lua linda, inspiração
Surgindo no horizonte
Com um flerte, ergue a ponte
Que nos leva a ilusão

Lua linda, inspiração
A luz que em ti se projeta
Segue uma linha reta
Que penetra o coração

Lua linda, inspiração
O amante se exaspera
O poeta te venera
Cravejado de emoção

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)