quarta-feira, 31 de março de 2010

Paixão


Estádio Maria Lamas Farache (Frasqueirão), domingo passado (28/03), quando da bela vitória do ABC sobre o América, por 1 x 0

Um sentimento
Dominador
Ardente chama forjando ilusão

Afrontamento
Provocador
Subjugando, sob coação

Penumbra intensa
Venda fatal
Cega a razão, escravizando o ser

Denso poder
Irracional
Um oceano de satisfação

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)


domingo, 21 de março de 2010

Notícias de Chuvas




Fotos enviadas por Sérgio Enilton, da chuva de hoje (21/o3), em Acari (RN)

Acabei de abrir meu correio eletrônico e lá estava o email que reproduzo abaixo, do amigo Sérgio Enilton, repassando notícias de chuvas no sertão de Acari. É o tipo de informação que adoro receber e repassar. O tempo não andava nada bom e as chuvas injetam um pouco de ânimo no sertanejo sofrido.

Boas notícias. Ontem, sábado, timidamente choveu nas terra da ribeira do Acauã. Estava na Fazenda Manoel Antônio e tive o privilégio de ver a terra molhada, as ovelhas pulando, a passarada numa festa só. E hoje, depois do trovão que deu aquele rasgo feroz, com muita vontade, arrebentando as "oiças" e respondendo nas encostas, por volta das 14:27h, começou a chover. Um cheiro de chuva benéfico. Para, um pouco; começa de novo. Aquele vai e vem.

As goteiras estão sendo limpas, as ruas com correnteza... Os meus filhos já estão todos tomando banho, junto com a criançada da rua que moro.

Chuvas de março: que Deus permita a sua constância nos meses de abril e maio.

sábado, 20 de março de 2010

Atitude




Em cada esquina da vida
Existe uma encruzilhada
Diante de uma cilada
A reação é devida
É decisão suicida
Uma decisão não ter
Desistir de combater
Faz do homem, derrotado
Pior que fazer errado
É errar por não fazer

Hesitação excessiva
Ou simples indecisão
Temor da reprovação
Gera conduta evasiva
Uma postura passiva
É um modo de viver
Em um triste padecer
Morto sem ser sepultado
Pior que fazer errado
É errar por não fazer

Seguindo seu próprio norte
Vivendo com atitude
Não há nada que não mude
Nem garantia de sorte
Só há certeza da morte
Rico, pobre, quem nascer
Em pó vai se desfazer
Esse é um fim já selado
Pior que fazer errado
É errar por não fazer

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

domingo, 14 de março de 2010

Dia Nacional da Poesia


Foto baixada da internet, de autoria de Sérgio Dantas


Toque Divino


Acomodadas em versos
Dispostas com maestria
As palavras logo pulsam
Num compasso de harmonia
Jorrando do coração
Seiva viva da emoção
Que constitui a poesia

O encanto que irradia
De um verso camoniano
É um sopro de magia
Tão sublime e soberano
Sinal claro e cristalino
Pequeno toque divino
Na condição de humano

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sexta-Feira



Sem compromisso
Portas fechadas
Braços cruzados, nada a ver com nada

Entregue ao vento
Densa poeira
Democracia que espalha sujeira

Cara amarrada
Dia cinzento
Cotidiano feito de cimento

Doce alento
É sexta-feira
Cerveja fria, vida passageira

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher


Nísia Floresta

Apesar de ser convicto de que a mulher não tem direito a um dia - a figura feminina tem direito é ao ano todo - faço minha singela homenagem nesta data que o mundo dedica a ela, em reverência e reconhecimento. Uma criatura tão sublime, tão coroada de atributos, onde Deus pôde exercer a sua generosidade infinita, no momento da criação, não pode ter vindo ao mundo para exercer um papel menos nobre, em um plano secundário.

Utilizo-me da figura de Nísia Floresta, por se tratar de uma norteriograndense que foi referência em intelectualidade, precursora do movimento igualitário, muito a frente do seu tempo, e que conseguiu mostrar ao mundo que a mulher é bem mais que uma mera coadjuvante subserviente, na humanidade. Num tempo em que as sinhás nacionais, segundo o velho ditado português, só deveriam sair de casa três vezes: a batizar, a casar e a enterrar (...), Nísia era feminista. Gilberto Freyre, em "Sobrados e Mocambos", 1936.

De repente podemos refletir: " - O que é que eu posso fazer pelas mulheres? Nada. Eu sozinho não posso fazer nada." Mas eu diria que a história de Nisia é um exemplo de que "você pode fazer muito". Em um tempo extremamente ostensivo para as mulheres, separar-se com 13 anos de idade; resolver desmistificar uma verdade quase absoluta, da inferioridade feminina, não teria sido possível se ela não tivesse recebido uma educação familiar alicerçada em valores menos arcaicos, com o apoio e o suporte necessário a estruturação de uma personalidade forte e uma inteligência superior. Portanto todos nós, mesmo que não resolvamos iniciar uma cruzada de valorização da mulher, podemos simplesmente educar nossas filhas, sem incutir nelas a perspectiva de inferioridade e de repreensão excessiva, apoiando-as, quando necessário. Também podemos criar os nossos filhos sob a égide do respeito e valorização da figura feminina. Feito isto, estão criadas as condições para o surgimento de mulheres inteligentes e importantes para a humanidade, como Nísia, e homens que saberão valorizar e respeitar as mulheres, como o pai de Nísia.

Mulher

Sem leito para deitar
Adormeço até no chão
Se faltar a condução
Ponho-me a caminhar
Querendo cedo chegar
Ando no passo apressado
Se faltar carne de gado
Passo com ovo mexido
A vida só tem sentido
Com uma mulher do lado

Se nos pés faltar a terra
Eu me penduro num galho
A rês que não tem chocalho
Tiro o rastro pela serra
Na hora que o burro emperra
Só anda se for puxado
Se meu time é derrotado
Perdeu por ter merecido
A vida só tem sentido
Com uma mulher do lado

Eu acendo o candeeiro
Na hora que faltar luz
O calor, logo, reduz
Na sombra do juazeiro
Com cachorro no terreiro
Adormeço sossegado
Abandono o proseado
Se o papo tá comprido
A vida só tem sentido
Com uma mulher do lado

Cara feia, para mim
É forte sinal de fome
Mas tem coisa que consome
E põe fogo no estopim
Bate logo o farnizim
Fico desacorçoado
Ambiente carregado
De macho, é poluído
A vida só tem sentido
Com uma mulher do lado

O perfume não tem cheiro
A joia não tem valor
Falta ao arco-iris, cor
Pra nada serve o dinheiro
Um burro bom, sem vaqueiro
O leite foi derramado
Um açude arrombado
O mundo tá destruído
A vida só tem sentido
Com uma mulher do lado

Estrela que incandesce
No firmamento da vida
Obra rara esculpida
Pelas Mãos que nos guarnece
É fogueira que aquece
No frio demasiado
Se o momento é complicado
Seu encanto é aduzido
A vida só tem sentido
Com uma mulher do lado

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

PS: Para os que desejarem se aprofundar um pouco mais na vida e na obra de Nísia Floresta, segue o link do Projeto Memória, que conta a sua história de uma maneira fantástica, cheia de ilustrações e o link (dentro do mesmo projeto) do livro fotográfico.

LINK DO PROJETO MEMÓRIA - NÍSIA FLORESTA

LIVRO FOTOGRÁFICO ZIPADO, EM PDF

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sepulcro Ardente


Descida da Serra de Santana, saindo de Lagoa Nova (RN) em direção a Currais Novos (RN)

Um sono leve...
Inconsciência...
Encanto breve, sem medo, sem dor

Sedenta flor
Exala a vida
Nocividade sem ser aferida

Passo que atrasa
Diapasão
Que é ritmado pelo coração

Em noite fria
Veneno quente
Razão velada em um sepulcro ardente

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Crendices Entre os Caçadores do Sertão do Seridó


Curiosa e mansa, pousando para um close

Sariema (seriema) domesticada , criada solta, desde pintinho.

CRENDICES ENTRE OS CAÇADORES DO SERTÃO DO SERIDÓ
(Oswaldo Lamartine de Faria)

O sertanejo seridoense carrega, como os demais homens do campo, as suas superstições legadas dos nossos antepassados luso-afro-ameríndios.


No Dicionário do folclore brasileiro, Luís da Câmara Cascudo arrola maior número de superstições ligadas ao cachorro:

"Quando uiva, está chamando desgraça para seu dono. Ouvindo o uivo, diz-se: todo o agouro para teu couro! Ou emborca-se um sapato virando-se a palmilha para cima. O cão se calará. Cachorro cavando na porta de casa está cavando a sepultura do dono; se cavar areia com o focinho para rua vale o mesmo. Com o focinho voltado para casa, cavando para fora, é anúncio de dinheiro. Dormindo com a barriga para cima, mau agouro. Deitado, com as patas dianteiras cruzadas, bom agouro. Rodando sem destino pela casa, está afugentando o diabo. Dormindo e ganindo, está sonhando. Urinando na porta é prognóstico feliz. Quando está uivando é porque vê almas do outro mundo ou a morte aproximando-se. Os cães eram sacrificados a Hécate e avisavam de sua presença invisível uivando, assim como viam os deuses, os lêmures, as sombras dos mortos (Ovídio, Fastos, 1, 889; Horácio, Epodos, V). Para cachorro não crescer, pesa-se com sal. Para não fugir, enterra-se a ponta da cauda ou os escrotos debaixo do batente da porta, ou, sendo na fazenda de criar, no mourão da porteira. Não é bom erguer o cão pelas orelhas, para que não fique mofino (covarde). Para não ficar hidrófobo, deve ter nome de peixe. Quem mata um cão deve uma alma a São Lázaro. Puxando a cauda do cão toma-se ladrão. Para livrá-lo da tosse, põe-se-lhe ao pescoço um rosário feito com pedaços de sabugo de milho. Cachorro com orelha cortada na sexta-feira da Paixão fica imune de hidrofobia. Quem sofre de pesadelo deve fazer um cachorro dormir debaixo da cama. Para perder o faro, passa-se uma bolinha de sebo na ponta da cauda e dá-se-lhe a comer. Para readquirir o faro, esfrega-se-lhe no focinho sangue de tatu ou de veado..."

Dentre muitas anotadas e omitidas atrás, acrescente-se que o cachorro não deve comer carniça de animal (o matuto quando diz animal, refere-se a eqüinos, asininos e muares) sob pena de ser atacado do "mal da rabugem". Como medida curativa amputam-lhe as extremidades das orelhas.

Antônio Vicente, meão de idade, natural da Serra da Araruna (PB) e assassinado em derredor da década de 1950 para uns lados da Serra do Sincho (São Paulo do Potengi, RN) dizia de uma vacina infalível para imunizar os cachorros contra a moléstia (hidrofobia); consistia em uma beberagem de rapadura, sal e alho a ser ministrada na "força da lua", isto é, três dias antes e três dias depois da lua cheia ou nova.

Força da lua que faz cachorro mordido correr (ficar hidrófobo), os aluados endoidarem, as fêmeas prenhes darem cria e os mordidos de cobra sofrerem terrível dor de cabeça. É de se imaginar que a selenotaxia no mundo sertanejo tem material sobejo para um estudo que já está tardando.

A caipora (curupira dos índios) não é "estória de Trancoso" para a maior parte daquela gente. Ela é a mãe do mato. Ruiva, assexuada, escanchada em um porco do mato e cachimbando — faz a vez do único código de caça que existe e se conhece naqueles mundos:

Vestida só com os cabelos
é a roupa que lhe convém
............
E os tais cabelos curtos
no corpo da caipora
é como espinho de cardeiro
a ponta aparece fora

Na noite de sexta-feira, evitam andar no mato. É o receio da caipora que os persegue com um assobio fino-de-fazer-medo e açoita-lhes os cães:

Tem noite que a caipora
quer ir brincar influída
corre adiante dos cachorros,
onde quer, fica escondida
os cães pegam a uivar
a caçada está perdida

No outro dia o cachorro
amanhece todo inchado
e fica vazando sangue
o cabelo arrepiado
e não pode mais comer,
morre o cachorro afamado

A meizinha usada para livrar o cachorro da caipora é a esfregadela de alho pelo corpo. Para o bicho-homem, há outra:

Mas a caipora é muito
intrigada com pimenta
caçador que come molho
a caipora se afugenta

O caçador que tomar
amizade à caipora
tem que lhe dar muito fumo
e ver ela toda a hora
mas descobrindo o segredo
ela dá-lhe e vai embora...

A caipora às vezes vem disfarçada em outro bicho. Um sertanejo, há muito, confidenciou-me haver disparado e recarregado a capricho sua lazarina por quatro vezes em um gavião vermelho: "Olhe que não dava quinze braças pra onde eu estava agachado. No primeiro tiro o bicho se arrepiou e sujou (defecou) — pensei inté que ia cair. Depois dos quatro, já desconfiado, rebolei uma pedra e vim m’imbora..." Outro contou-nos haver atirado em um veado e esse, impassivelmente, vir farejar o pé de pau onde estava trepado. Astúcias da caipora.


(Faria, Oswaldo Lamartine de. A caça dos sertões do Seridó. Rio de Janeiro, Serviço de Informação Agrícola, 1961. Documentário da Vida Rural, 16, p.52-53)

sábado, 23 de janeiro de 2010

Carcará


Foto baixada da internet, de autoria desconhecida



Garras fortes, afiadas
Imobilizando a presa
Bico penetrando a carne
De uma vítima indefesa
Precisão em golpe presto
Crueldade em cada gesto?
Não. É sua natureza

Com agressiva frieza
E conduta assassina
O planador saguinário
Vôa pra carnificina
Não cultiva piedade?
Ou faz tudo por maldade?
Não. É só a sua sina

Sua beleza fascina
Deslizando em pleno ar
Imponente e absoluto
Domina o seu habitat
Não mata porque lhe apraz
Nem é símbolo de paz
O astuto carcará

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Chuva II


Foto tirada no domingo (17/01), da estrada da Faz. Fortaleza, em direção a Jardim do Seridó

Agora, ao final da tarde, recebi uma ligação do meu irmão José Gentil, falando-me que tinha acabado de chegar de Currais Novos e que tinha "pego chuva" de lá até Acari. E agora, chegando eu em casa, abro o correio eletrônico e leio o email transcrito abaixo, remetido por Sérgio Enilton:

Parece que São Sebastião irá cumprir as promessas rogadas para esse ano. Ontem em Acari o tempo ficou abafado, mas só a noite por volta das 19:00 horas é que caiu aquela chuva mansa e generosa. Hoje (19) véspera de São Sebastião padroeiro em várias cidades do Seridó, sua devoção faz com que o sertanejo peça em preces e roga as bençãos de um bom inverno e boa fartura protegendo das pragas e pestes. Eis que chove em Acari, já no cair da tarde (16:00) as nuvens escureceram e está caindo chuva no sertão. O trovão sempre avisando que vai cair um pé d'água.

A rua Da Matriz, próximo a agência dos Correios, tem um desnível que provoca aquele alagamento, e aos poucos a água da chuva vai lavando o calçamento. Como diz a música: "Chove chuva, chove sem parar..." A noite serena chegou e continua chovendo. É quase hora da "ave-maria".

É difícil explicar a pessoas de outras origens, esse sentimento que domina o sertanejo, quando se depara com a chuva. O que para muitos é motivo de aborrecimento, para nós é motivo de comemoração. Poucas coisas me trazem tanta satisfação quanto um banho de chuva em uma biqueira farta, estando eu no Seridó. Fico, daqui de Mossoró, morrendo de inveja da menina que, certamente, a essas alturas, sobe e desce ruas, em busca da goteira mais generosa.

Vamos torcer para que o bom prenúncio de inverno se confirme.

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

Chuva


Foto tirada no domingo (17/01), da estrada da Faz. Fortaleza, em direção a Serra da Rajada

Foto tirada no domingo (17/01), da estrada da Faz. Fortaleza, em direção ao nascente

Foto tirada no domingo (17/01), estrada que leva a Jardim do Seridó, da entrada do Bico da Arara, em direção a Serra da Rajada

Foto tirada no sábado (16/01), da estrada da prainha, em Gargalheira

Foto tirada no sábado (16/01), do Bar de Boinho, em Gargalheira

De chuvas, fauna e flora

Nos últimos dois finais de semana estive no Seridó. Já é possível contemplar a vida ressurgindo, literalmente, das cinzas. As chuvas caídas no final do ano e as demais chuvas esparsas que se precipitaram já este ano, como uma mágica, estão colorindo o cenário sombrio acinzentado. Da rodovia, é possível observar a explosão de vida que eventualmente atravessa o asfalto: preás, raposas e animais peçonhentos são os mais comuns, além da passarada. Mas no domingo (10/01) anterior ao domingo passado, após São Rafael e a caminho da BR 304 , em plena luz do dia do final de tarde, cruzou em nossa frente um gato do mato vermelho. Um animal difícil de se ver e bastante sagaz, que só tive o prazer de contemplá-lo uma única vez, a caminho do sítio, na estrada do Bico da Arara. O gato vermelho é parecido com um puma em miniatura. Lindo demais!

Então eu lembrava dos relatos (absurdos), que já escutei, de caçadores que apreciam o prato (crime), justificando que o mesmo tem uma carne saborosa, assemelhando-se ao sabor de galinha. E aí naquele momento eu pensava: - “Eu daria um galinheiro inteiro para que o gato desse uma paradinha, para que eu pudesse fotografá-lo.” Infelizmente só pude guardar o animal na lembrança, já que ao ver o carro, o mesmo mergulhou na mata, assim como na primeira ocasião.

Mas voltando ao assunto “chuva”, nos dois finais de semana as chuvas passaram bem perto da cidade (Acari), por vezes chuviscando, como ocorreu no domingo passado. As fotos acima foram tiradas no último sábado, em Gargalheiras, e no domingo, na saída para Jardim do Seridó.


Chuva


Gotas que caem do céu

Cortina que cobre o anil

Deslizando no vazio

Coloca doce no mel

Um afiado cinzel

Na habilidosa mão

Do experiente artesão

Que entalhará a vida

Sorri, a face sofrida

Força do frágil sertão


Penetra o solo sagrado

Que pisa o gado faminto

No campo, preto retinto

Brota o pasto encantado

Mesmo sem ser semeado

O verde recobre o chão

Milagre da criação

Obra-prima colorida

Sorri, a face sofrida

Força do frágil sertão


Seca a lágrima do rosto

Molhando a árida terra

Ornamentando a serra

Com o máximo bom gosto

Maltrata o corpo disposto

Calejando sua mão

Afago no coração

Que cura qualquer ferida

Sorri, a face sofrida

Força do frágil sertão


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Palavras


O primeiro alvorecer do ano, por Canindé Soares

Peço desculpas aos que eventualmente me dão o prazer da visita a este espaço, pela minha ausência prolongada: é que o trabalho e o estudo me absorveram totalmente neste final de ano. Agradeço aos que, de certa forma, "cobraram-me" publicações, como também agradeço aos que expressaram preocupação pelo meu "sumiço" não justificado.

Palavras

Palavras provocam guerras
Ou encerram os conflitos
Muitas elevam verdades
Outras edificam mitos
O bom homem faz o uso
O tirano faz o abuso
Com embustes contraditos

Palavras são como lanças
Numa dança insinuante
Contorcendo-se no céu
Num balé dissimulante
Em uma missão hostil
Vão percorrendo o vazio
Rumo ao alvo litigante

Palavras arrasadoras
Como a larva do vulcão
Poderão desagregar
A mais sólida união
Capacidade nociva
Substância corrosiva
Força de devastação

Palavras resignadas
Emanam sabedoria
Proferidas com destreza
Dispostas com maestria
Confortando a comoção
Apascentam a aflição
Irradiando harmonia

Palavras, como punhais
Sangram o flácido peito
Singrando mares revoltos
Sagram o ímpio, imperfeito
Um belicoso arsenal
Posto a serviço mal
Ou, das virtudes, afeito

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Corpo e a Alma


Com o seu fardo pesado
Distante do holofote
Sob o açoite do chicote
O corpo é martirizado
No tormento é afogado

Quando a carne é agredida
Mas mesmo a grave ferida
Não o torna um infeliz
Só condena à cicatriz
Da tortura recebida

Já a alma conduzida
Pelo açoite da riqueza
Perderá toda a nobreza
Numa vida reduzida
Quando a aura é seduzida
Pela gana obscena
A ferida que gangrena
Como chaga erosiva
Sangrará em alma viva
Sem nunca ter cura plena

A mais agressiva pena
Que podemos padecer
Não esgota o prazer
Da existência terrena
Mas se a alma se apequena
Em um árido deserto
Terá um destino certo
De embuste feiticeiro
Um escravo do dinheiro
Nunca estará liberto

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Geni e o Zepelin


De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Foi assim desde menina
Das lésbicas concubina
Dos pederastas, amásio
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
"Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni"

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme Zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do Zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "mudei de idéia
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir"
Essa dama era a Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela prisioneiro
Acontece que a donzela
E isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
"Vai com ele, vai, Geni
Vai com ele, vai, Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni"

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nesta noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu Zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
"Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni"

(Chico Buarque de Hollanda)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Culto ao Sensacionalismo



Não consigo entender como é que com tantos problemas relevantes a serem aprofundados, com tantas injustiças maiores para serem noticiadas – se é que há injustiça no caso –, a imprensa abre o espaço que abriu, em todos os canais e em todos os horários, para uma ocorrência tão pouco relevante, como foi a expulsão da aluna da Uniban.

Longe de mim, querer questionar a justiça ou injustiça da expulsão, a pertinência ou não da atitude, mas será que o MEC não tinha problemas maiores para cuidar, interpelações mais importantes a fazer, que ir pedir esclarecimentos a respeito de uma decisão que pode até ser questionável, mas está longe de ser absurda - falo exclusivamente da deliberação sobre a expulsão. Para mim só há uma intenção nisso tudo: a busca pelos holofotes.

Não só o MEC, mas qualquer outra instituição pública que se meter no caso vai estar buscando exclusivamente notoriedade. Se a aluna tiver sido tratada de uma forma injusta pela Uniban, ela tem a justiça para recorrer e pelo menos mil advogados querendo pegar o caso só por um percentual da causa. Com certeza não será desamparada e seus direitos serão tutelados em sua plenitude.

A fúria insana dos estudantes no dia em que a aluna foi rechaçada é tão repugnável quanto a repercussão que o caso está tendo. Infelizmente essa publicidade toda só existe porque há quem goste. Cogito que o forte apelo é como um alimento para muitos. Qualquer assunto, por mais importante que seja, fica em segundo plano quando vem a tona um vexame escandaloso. É a baixaria como novo elemento cativante de audiência - o "Pânico na TV", da Rede TV, é o maior exemplo disso - e a sedução apelativa do culto ao sensacionalismo e ridicularização.

sábado, 7 de novembro de 2009

São Seridó Amado II



Igreja do Rosário de Caicó (RN)

Após a postagem do poema do poeta Da Mata, encaminhei um email para ele indagando alguns detalhes da sua composição, que, devido a minha ignorância, não compreendi. Então o amigo me respondeu com o email abaixo e, de quebra, anexou um texto muito interessante sobre a sua ida a Festa do Rosário de Caicó, deste ano. Em itálico segue o email explicando detalhes do poema e, na sequência, o referido texto ipsis litteris:

Caro Pedro,

Cezão é como os antigos conheciam a malária. Meu avó morreu dessa doença. Meu bisavô foi mestre escola em Caicó. O mestre Escola era um professor que ia ensinar nas fazendas . Um professor ambulante. O quadrivium do latim eram as quatro disciplinas ensinadas antigamente, aritmética, geometria, astronomia e música. Formava com o trivium, gramática, lógica e retórica, as sete artes liberais que precisava ser aprendida para ser considerado culto. "Sefus gões" é uma expressão latina que vi gravada num quadro e é uma homenagem ao padre Guerra.


Abraço,


João da Mata Costa
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Viagem à Vila Nova do Príncipe

Cinqüenta Anos depois


Para Moacy e Edjane


Da Festa do Rosário, Bar do Ferreirinha, Personalidades, Amigos e outras matérias.

“Da Mata é o Físico João / Faz do Mister o Amor”.

(Lula Pneus)

Bar do Ferreirinha 50

Em cinqüenta anos a volta. Saí de Caicó com um ano de idade numa festa de do Rosário e volto cinqüenta anos depois. Uma volta para a mãe-terra. Para o útero. Tudo é envolto num mar de significados para além do que posso escrever.

Encontro sem combinar com o meu querido tio José Paulino – Zé Baixinho, irmão da minha querida mãe. Encontro Zé Romão nos seus mais de oitenta anos. Chapeleiro antigo e amigo íntimo de papai morto precocemente.

Logo ao chegar ao Bar do Zeca Barrão encontro o famoso Bibica. Nosso candidato a governador. Quem não for babaca vota Bibica. Bibica acompanhado de um bode vende a rifa (mais uma) que sortearia o famoso animal-símbolo do sertão nordestino.

Bibica é querido de todos e está em toda parte. No outro dia Bibica está de paletó para cumprimentar seus eleitores e tirar fotos com os seus muitos admiradores.

O filho do Dinarte Mariz, o ex-reitor da UFRN Geraldo Queiroz, políticos e vereadores, professores e populares estão presentes na festa de lançamento do livro.

Outra grande figura que tive o prazer de conhecer foi o comediante Silva – Cover do Chico Anysio. Artista que esteve entre os 10 melhores do Faustão. Simpático sempre fazendo muganga com a boca e língua.

O lançamento foi um sucesso. Livro-homenagem aos 50 anos do bar do Ferreirinha, o mais tradicional de Caicó- RN. Um livro-álbum de fotografias numa justa homenagem ao bar e seu proprietário, para ciúmes do Zeca Barrão cujo bar vizinho-esquina faz encontro de cadeiras com o bar do Ferreirinha.

Estão de parabéns os autores do livro Roberto & Pituleira e o editor Abimael. São vendidos mais de uma centena de livros numa festa que durou o dia inteiro. Só interrompida para a passagem da procissão do Rosário. Animou a festa a Banda de Música Recreio Caicoense seguida por uma animada roda de samba. Dei uma canja e dancei acompanhado da grande musa da festa, a bela atriz Nina.

Ferreirinha e Anchieta, o primeiro cliente do bar - também autografaram o livro. Não faltou quase ninguém no lançamento-festa. Muito sentida foi a ausência do Moacy, mentor e prefaciador do livro.

Um grande abraço para o amigo Lula Pneus com quem tive o privilégio de conversar pessoalmente, e recebi de presente um lindo poema cujo mote é a epígrafe desse artigo.

Parabéns ao Souza por nos mostrar seu acervo de fotos antigas de Caicó e seus habitantes ilustres.

O mestre de cerimônias da festa foi o grande comunicador Pituleira.

Para completar o dia-banquete de emoção e resgate, encontro na noite Caicoense, a grande cantora Dodora e a amiga Edjane. É demais para o meu coração.

Em cada habitante um rastro. Na aspereza do ar, a rispidez da falas o orgulho do seridoense. O presente grávido do passado nutre uma grande alegria de poder estar vivendo esse momento de grande riqueza biográfica em meio século de existência.


Outras Personalidades


A casa do Passarinho Avelino

Avelino é um amigo de sempre. Fico em sua casa que é como um coração – atelier- floresta – gaiola aberta de sonhos. Em cada canto uma obra de arte da Ave-Linho.

Um quadro abstrato é uma das ultimas obras do artista. Quadro inspirado nas cercas de pedras caicoenses recebeu o título de “priquito atravessado”.

Ali adiante duas caixas de ovos pintados pelo artista passarinho. São seixos rolados de um rio que flutua feito uma rosácea-cera, ou seria Papai Noel.

Maurílio – O guardador das Horas

Na sua casa-museu guarda o tempo o agrimensor Maurílio. São dezenas e dezenas de relógios antigos que adornavam as casas antigas e marcavam as horas sertanejas de um tempo que parece mais lento. Mecanismos acionados por cordas e emoldurados por belas esculturas em madeira. Na parede da casa já não cabe tantos relógios maravilhosos. Ali um outro relógio raro que acompanha um calendário. Um outro belo relógio funciona com pilhas e os dias são marcados por laminas de aço que se sucedem.

Completa a coleção Mauriliana uma bela coleção de imagens sacras e outros objetos religiosos. Vitrolas antigas que ainda tocam discos 78 rpm. Teodolitos. Espingardas. Baús. Lanternas antigas a gás e muito mais objetos fazem parte de uma belíssima coleção de um grande gentleman e cultor das artes Um homem que vive o presente cultuando o passado e as horas das Aves- Maria.

Agradeço a generosidade do Maurílio e sua querida esposa, irmã do nosso querido amigo Avelino, pela bela oportunidade de conhecer um pouco mais a rica cultura sertaneja.

Para completar somos servidos de um bom café acompanhado do verdadeiro e único queijo de manteiga de Caicó.


Souza - O guardião da memória fotográfica.

O ex-soldado Souza é colecionador de um rico acervo de fotografias de personalidades e outras pessoas da sociedade caicoense. São muitas fotos organizadas em pastas de sacos plásticos que precisam ser melhores organizadas e arquivadas.

Grande parte da história de Caicó e seus protagonistas fazem parte do rico acervo coletados com muito amor pelo colecionador amador. Políticos, times de futebol e pessoas do povo fazem parte do acervo do Souza, que tive o privilégio de conhecer.

Tudo começou quando Souza ausente de sua cidade por longos anos, presenciou num lixo algumas fotos suas. Esse fato triste levou Souza a recuperar essas fotos e iniciar a sua prestigiosa coleção que resgata boa parte da história de Caicó desde o princípio do século XX. Muitas fotos foram copiadas de originais emprestados e outras foram resgatadas dos desvãos do tempo.

Sugeri ao simpático Souza que organizasse essas fotos numa publicação para a posteridade. O seu acervo daria um belo livro-álbum de fotografias de uma Caicó que precisa ser lembrada. Fotografias que contam uma belíssima história da grande civilização seridoense.

A Festa da Irmandade dos Negros do Rosário

No domingo 01 de Novembro de 2009 sai pelas ruas o cortejo da Rainha e Rei do Rosário acompanhado do seu séqüito de damas e corte. Um negro segura um toldo para abrigar os reis do congo. A rainha desse ano é uma senhora de pele clara que deve estar pagando promessa.

Os negros vestidos de calças e camisas azul e branco acompanham o casal real. Em seguida a banda galantemente vestida toca para alegria dos moradores e apreciadores. Emocionado sigo o cortejo até a Igreja do Rosário que espera a chegada dos reis para a grande celebração da missa das 10h. Fogos celebram o grande acontecimento. As primeiras cadeiras da bela Igrejinha do Rosário são reservadas para os negros que entram na igreja sob aplausos. Os negros portam lanças e dançam alegremente. A missa solene acontece acompanhada do belo hino da irmandade dos negros do Rosário.

No final da tarde toda a cidade aguarda para acompanhar ou saudar á grande procissão que segue novamente para a Igreja do Rosário onde será celebrada uma segunda missa, após a qual novo reinado será escolhido e o rei e rainha receberão as coroas e cetros, numa tradição que remonta ao século XVIII.

Nos dias que antecedem à grande festa dos Negros dos Rosário, eles saem pelas ruas e feira livre para angariar dinheiro e mantimentos.

Converso com seu Bonifácio que participa da festa há 60 anos. O historiador Muirakytan da UFRN/CERES de Caicó registra tudo em sua câmera fotográfica. Esqueci a minha máquina e registro o que a emoção permite numa bela e grande manifestação da cultura popular brasileira.

Essa festa é uma das mais saudosas recordações da minha mãe. Em cinqüenta anos volto á terra onde nasci e me batizei como quem volta pra casa. E fosse só por isso já merecia esse reencontro carregado da dor e alegria de poder estar vivendo um grande dia na historia de minha vida.

João da Mata Costa

Novembro 2009.

São Seridó Amado


Da Vila do Príncipe recebi o poema do caicoense João da Mata Costa, que publico abaixo:

Moxotó, camará, catingueira
Sustentam a vida
A chuva acorda a terra num
Odor de zimbro e chumbo
Meu sertão caritó
Serra Negra, Acari.
Caicó e Jardim do Seridó
Thomas- o filho - cronista
De homens-ferros,
Cachimbos, galegos
Judeus e Portugueses
A rede suspende a vida – letargia -morte
Meu avô morreu de cezão aos 33 anos
O bisavô mestre-escola
Minha avó dormia só uma madorna e
Faleceu de arteriosclerose.
Mamãe solidão
Vivendo estamos doendo
Não há fim para essa lembrança.
Engenho torto
Açúcar o sangue
Chouriço espécie
O sol a carne
Queijo de coalho e lingüiça
Fu-deu? Não, não foi Deus
Ninguém entende
Sefus gões
Quadrivium
Guerra - o Padre
Sant´anna; ensina
esse menino!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Carne de Sol



A culinária do sertão nordestino é bastante rica e variada, mas, sem dúvidas, a carne de sol é o prato mais apreciado na região e também o mais afamado fora dela. Juntamente com os queijos de coalho e de manteiga compõem os itens mais nobres do cardápio sertanejo. Os modos de preparo dos pratos são os mais diversos e a todo dia novas e criativas receitas são criadas. Mas, e a industrialização da carne? Será que a carne de sol que compramos no açougue é a mesma que se consumia no início do século passado? 

O processo de tratamento da carne provavelmente foi desenvolvido a partir da herança cultural dos colonizadores, já que os portugueses tinham a tradição de conservar alimentos perecíveis expondo-os ao sol (frutas) ou salgando-os (peixes e bacalhau). A paternidade da carne de sol é reinvindicada e dividida entre os estados do CE e do RN, porém, indubitavelmente, o Rio Grande do Norte conservou melhor a tradição, especialmente na região do Seridó. Mas será que a carne de sol que hoje consumimos preserva o seu modo de preparo original? Será que esse traço da cultura alimentar nordestina, que rompeu fronteiras e que hoje tem apreciadores em todo o território nacional, mantém a forma de manipulação da carne intacta? Não. Apesar da preservação do hábito, o modo de elaborá-la sofreu grandes modificações.


A carne de sol que se preparava no Seridó até os anos 60, tinha um rito bem mais demorado, que levava dois dias até ficar pronta para comercialização e consumo. Normalmente, o dia de abater o gado era 48 horas antes do dia da feira semanal do município. No caso de Acari (RN), isso se dava na madrugada da sexta-feira. Após a matança(1) , a carne era desossada, divididas em mantas (2) e posteriormente colocada em descanso até “esfriar”. Logo em seguida, as mantas eram cuidadosamente abertas(3) e salgadas. Conclusa a salga, eram enroladas no próprio couro da rês e lá permaneciam durante todo o dia da sexta-feira, salmourando(4). No decorrer do dia, o couro era eventualmente aberto para que as mantas fossem viradas e, em seguida, envolvidas novamente. À noite, as carnes eram retiradas do couro e estendidas em estacas firmadas sobre forquilhas, que eram chamadas de estaleiro, e lá permaneciam no sereno durante toda a noite e madrugada do sábado. Ao amanhecer, as carnes eram viradas no estaleiro onde passaram a noite e lá mesmo recebiam o sol da manhã, que era a fase final do processo. Em seguida, as carnes, já bem curadas e enxutas, eram retiradas do estaleiro e acondicionadas, enfardando-as em esteiras, de onde só sairia para o consumidor na manhã do dia seguinte, no domingo.

Hoje o processo se resume a salga, com um abreviado tempo salmourando, que se estende até a manhã do dia da matança. Logo em seguida a carne é imediatamente acondicionada em câmaras frias, para que não haja muita perda de peso com a desidratação pelo sal.

(1) Matança - Abate de gado. O chamado dia da matança é o dia da semana em que se costuma abater gado.
(2) Manta - Peça de carne inteira. No passado, o quarto traseiro do boi, de onde é retirada a chamada "carne de primeira", era dividida em apenas três mantas: Chandanca ou chá de fora (compreendia o coxão duro, lombo paulista e picanha), patinho (consistia no patinho propriamente dito, na alcatra e no contra-filé) e chã de dentro (Coxão mole e o filé). A única peça que era subdividida antes da salga era a chã de dentro, de onde era retirado o filé, que era conservado verde (sem sal) - único pedaço traseiro que não era salgado.
(3) Abrir a carne – Cortar o músculo bovino parcialmente, sem seccioná-lo totalmente, de modo que a manta fique mais fina. Depois a carne é novamente cortada, abrindo-se sucos para facilitar a penetração do sal.
(4) Salmourar - Ato de deixar a carne desidratando, "escorrendo salmoura" após a salga. Ao perder líquido, a carne não só fica menos perecível, como também concentra mais o seu sabor.

domingo, 1 de novembro de 2009

Lua - Alma Feminina



Lua linda, radiante 
Rasga o pano da treva
No firmamento eleva
Sua face deslumbrante
Satélite cintilante
Ilumina o terreiro
É a luz do candeeiro
Na escuridão soturna
Na cavalgada noturna
Orienta o vaqueiro


Passa por trás do coqueiro
Para inspirar o pintor
Que faz da arte, um louvor
A um encanto passageiro
No peito aventureiro
Planta e rega uma semente
E o sentimento latente
Se transforma em paixão
Acende no coração
A chama do amor ardente


Companheira complacente
Na noite de boemia
Realçando a melodia
Com um cenário reluzente
Um facho de luz tangente
Se transforma em palidez
Quando reflete na tez
Da musa que nos apraz
Poesia em carne se faz
Um sonho real se fez


Com sedutora avidez
Aconselha-nos a amar
Comanda a força do mar
Com soberana altivez
Porta de um céu cortês
Em qualquer fase fascina
Enfeitiçando a retina
A sua aura prospera
Por trás da beleza impera
Uma alma feminina


A natureza sublima
Força e sabedoria
Prega sempre a harmonia
Quando agredida, lastima
Valorizada , aproxima
Com grandeza preciosa
Bela, nua, graciosa
Nos envolve em seu manto
Com misterioso encanto
Brilha a lua majestosa


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Braço Desarmado


O que fazer com um ser livre que tem um vício que provoca imenso desconforto ou até mesmo risco, aos que o cercam? O que fazer se ele não aceita tratamento, nem o estado dispõe do aparato prescrito admitido para o caso? O que fazer se o legislador vive em um "faz de conta", habitando um mundo diverso do real, em um pais que não é o Brasil, e que cria uma legislação muito bonita, mas absolutamente inexequível e inaplicável? Sigo esta linha de raciocínio, caminhando através de indagações, para retornar a primeira pergunta, reformulando-a de uma forma mais objetiva: O que fazer com um drogado perigoso, que não aceita tratamento?

Penso que o “braço desarmado” é sempre a primeira opção para a solução de qualquer problema ou conflito. Mas a sua ação é limitada. Muitas vezes se faz necessário o uso do “braço inclemente”, a força sem complacência que reduz o irredutível.

O desabafo do pai e poeta que dizia ontem (26/10), no Jornal Nacional, que tinha sido preciso que o seu filho cometesse um crime bárbaro, uma tragédia anunciada, para que o estado desse o tratamento que ele precisa - a privação da convivência social – foi muito forte. Seria muito bom que a morte da menina não fosse em vão. Seria muito interessante que deixassem de hipocrisia: o Brasil ainda não dispõe da estrutura necessária a implementação eficiente da atual legislação. A discriminalização do uso de drogas está deixando a população entorpecida e a polícia impotente, sem capacidade de reação. Fazer o quê? Esperar o drogado cometer um crime trágico para esboçar reação?
link da reportagem no site globo.com

Braço Desarmado

Faço parte do braço desarmado

Que refuta a injusta ação legal
Tem no bem, no bom senso e na moral
Substância assaz pétrea, bem sagrado

Faço parte do braço obstinado
Legião da inquietude abissal
Que evita o decurso temporal
Adotando um compasso apressado

E apesar de agir sem violência
É fiel a resposta veemente
Mas se mesmo assim lhe faltar fluência

Então venha o braço inclemente
Com a arma letal, sem complacência
E o mal necessário, eficiente


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)


PS: Em junho deste ano já tínhamos abordado o tema através da postagem "drogas".