quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Força da Natureza



De férias em Acari, tenho passado mais tempo no sítio que na cidade. A zona rural está mais bela que nunca. O verde proporcionado pelo excepcional ano de inverno é como o nascimento de uma criança, que apaga da mãe toda a dor do parto, no caso, a dor da seca.

Não sei se é impressão minha ou se é o passar dos anos que desperta em nós uma maior sensibilidade às belezas que nos rodeiam, mas o fato é que me ocorre a nítida percepção que a vida tem explodido, ressurgindo das cinzas, no ambiente hostil dessas paragens do semi-árido nordestino. Tenho percebido uma população cada vez maior de pássaros colorindo os nossos céus sempre tão ensolarados. Galos de campina, concrizes, periquitos e muitos outros têm se mostrado aos bandos, numa sinfonia de cor e canto que encanta e apascenta. Ontem (14/07), ao entardecer, quando retornava do sítio, deparei-me com uma sariema (“seriema” não me agrada, soa estranho, como se fosse um outro animal) na estrada e, por sorte, andava com a câmera que fiz o registro de dentro do carro, mesmo com pouca qualidade, mas representativo de um testemunho da manutenção da vida. Há algum tempo atrás, encontrar uma sariema em um local que não fosse remoto e completamente desabitado, era algo muito raro. Hoje é muito comum ouvir o seu canto, mesmo em locais relativamente próximos da "vida cilizada".

Não sei se essa constatação decorre da atuação mais contundente do Ibama ou da consciência ambiental que começa a ganhar vulto ou dos últimos anos de bom inverno ou desses fatores todos somados, opção que julgo mais pertinente. Mas acho louvável o rigor na atuação dos órgãos públicos de proteção à natureza e rogo para que cada vez mais essa atuação imponha medo aos agressores da nossa frágil e agonizante fauna.

O Caçador

Tanto faz, se a arma é um cachorro
Se é branca, de fogo ou baladeira

Caçador é um poço de asneira
Contra ele eu elevo o meu desforro

Qualquer um bicho bruto, eu socorro
Mas sendo um caçador, pego e amarro

Predador racional, se nele esbarro

Piso em cima, esculacho e esmurro
Eu espanto, recanto e empurro

Tiro sarro, critico e escarro


Passando num roçado ele se apeia

A fartura que existe não escapa
Se não der pra levar, guarda o mapa
E no dia seguinte surrupeia
Com o suor dos outros faz a ceia
Do trabalho alheio se apossa
Vai tomando de conta, toda a roça
Fazendo sua feira, sem demora
Melancia madura, ele devora
Não estando no ponto, ele destroça

Se encontra um açude no cercado

Analisa se o peixe é abundante

Se o local é escondido ou distante

Sendo assim já o deixa reservado

Vem à noite e leva o pescado
Para trás fica o rastro de arruaça
Um cabrito no mato, vira caça

O arame da cerca, ele folga
Vida fácil, desordem lhe empolga
E o furto que fez vira cachaça


Sou pacato, não quero confusão

De confronto, eu só quero distância
Me afasto de qualquer arrogância
Mas quero muito vê-lo na prisão
Minha ação é uma tênue ilusão
Tudo que nos meus versos relatei
O que disse que faço, não farei
Se fizer, vai ser só em pensamento

Sonhando me livrar desse tormento

Caçador? Ou é um fora da lei?

(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

2 comentários:

  1. Esse contato com a natureza, faz um bem enorme. Tira o estresse, revigora o corpo e o espírito, além de inspirar lindos textos como estes.Ah,quando a maioria das pessoas tiverem uma consciência semelhante a sua, respeitando e amando o planeta, teremos aqui um paraíso. Vamos pelo menos sonhar.
    Boas férias!

    Grande abraço,
    Célia Medeiros

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  2. Adorei passear por seu blog nestes últimos dias e ver como a cada dia mais as poesias ficam melhores. O modo como você expressa a realidade que nos aflige, as drogas, o tempo que passa tão rápido, a natureza (e os que fazem questão de destruir a natureza) a cultura; a região seridó que você descreve tão bem. É uma sala de aula onde aprendemos de tudo um pouco; eu mesmo já aprendi muito.
    Continue assim. Mais uma vez, Parabéns.

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